O boato avançou para o oeste pela água
Em meados de 1977, uma história começou a correr pelo litoral do norte do Brasil, das vilas de pescadores do Maranhão em direção à foz do Amazonas. Uma luz chegava à noite, baixa sobre a água ou sobre os telhados, e apanhava as pessoas com um feixe estreito; quem era tocado ficava fraco, queimado, marcado ou paralisado. Os nomes mudavam de cidade para cidade — aparelho, luz vampira, bicho — e por fim se fixaram em chupa-chupa, porque todos concordavam sobre o que a coisa queria. Na segunda semana de outubro, os jornais de Belém já publicavam os relatos de Santo Antônio do Umbituba, e o pânico atravessou a baía até Colares, uma cidade insular de pescadores do outro lado da água, diante da capital. Seria Colares que daria nome ao fenômeno no mundo lá fora.
Fontes: Material de missão da Operação Prato e resumo de inteligência do SNIÓvnis no Brasil: o que foi a Operação Prato, investigação da ditadura sobre fenômenos ufológicosArquivo Nacional libera relatos de brasileiros sobre supostos Ovnis
Uma cidade passou a esperar um ataque
Os ilhéus pararam de sair para pescar depois que escurecia. Ruas inteiras dormiam juntas ao relento, acendiam fogueiras, batiam panelas, rezavam em procissão e soltavam rojões para o céu. O relatório de inteligência que acabou chegando a Brasília resumiu tudo numa frase: a população «realizava procissões, acendia fogueiras e soltava fogos de artifício, com o objetivo de espantar o que chamava de “bicho”». O mesmo relatório explicava o pânico a seus leitores na capital com a voz do regime: o litoral abrigava «uma população subnutrida, de baixo nível educacional e, sobretudo, mística». Um de seus próprios registros, vindo de um vilarejo um pouco adiante na estrada, contava outra história. Um homem chamado Manoel Matos de Souza tinha tentado atirar na coisa e fora atingido, anotou a Força Aérea, por um feixe de luz vermelha que o paralisou e o deixou de cama por duas semanas.
Fontes: Material de missão da Operação Prato e resumo de inteligência do SNIRegistro de Observações de OVNI — Pará, setembro de 1977 a novembro de 1978Óvnis no Brasil: o que foi a Operação Prato, investigação da ditadura sobre fenômenos ufológicos
Os pacientes da clínica de Wellaide Carvalho
O posto de saúde da ilha era dirigido por uma clínica geral de vinte e quatro anos, Wellaide Cecim Carvalho, e é graças a ela que a história tem um registro médico. Em novembro de 1977, ela falou aos entrevistadores da Força Aérea sobre quatro pacientes: «todos apresentavam queimaduras de primeiro grau, além de marcas de pequenas perfurações… os homens na região do pescoço, sobre a jugular, e as mulheres no seio (apenas um caso)». Estavam assustados, tontos, fracos e trêmulos. Ela não acreditava que alguém tivesse tido o sangue sugado. Não havia comunicado nada disso à Secretaria de Saúde do estado, disse, «para evitar cair no ridículo». Com os anos, seu relato cresceu junto com a lenda. Numa entrevista de 2005, ela descreveu mais de quarenta vítimas em pouco mais de um mês, três das quais, todas mulheres, haviam morrido, e acrescentou um detalhe que fez dela uma heroína da história: a de que os militares lhe haviam entregado caixas de tranquilizantes, pedido que convencesse as testemunhas de que estavam alucinando e advertido que, se continuasse acreditando nos moradores, ela «sofreria punições severas».
Fontes: Material de missão da Operação Prato e resumo de inteligência do SNIEntrevista com Wellaide Cecim CarvalhoÓvnis no Brasil: o que foi a Operação Prato, investigação da ditadura sobre fenômenos ufológicos
Claudomira e a luz verde
O relato que melhor capta o que os ilhéus temiam veio de Claudomira Rodrigues da Paixão, de trinta e cinco anos, entrevistada em 1º de novembro pelo chefe da seção de inteligência do comando regional. Às onze da noite de 18 de outubro, contou, ela acordou com um feixe de luz verde no quarto. Ele se fixou em seu seio esquerdo, «sugando-o», e depois desceu até a mão direita, onde ela sentiu algo «como a picada de uma agulha». A voz ficou presa na garganta e o corpo não se mexia. O que quebrou o encanto foi o mundo de todo dia: a mulher que dividia a casa com ela ralhando com uma criança que tinha feito xixi na rede.
Fontes: Material de missão da Operação Prato e resumo de inteligência do SNIRegistro de Observações de OVNI — Pará, setembro de 1977 a novembro de 1978
A médica olhou para o céu
Carvalho viu a coisa com os próprios olhos, duas vezes. Em 16 de outubro, às seis e meia da tarde, e de novo no dia 22, contou aos entrevistadores, um objeto silencioso ficou parado sobre a orla — cinza metálico, «cilíndrico, quase cônico», com dois ou três metros de comprimento — e se movia de um jeito que ela chamou de quase cômico. A Força Aérea a incluiu como testemunha em seu próprio registro, entrada 008, com dois esboços. Quase trinta anos depois, ela deu a entrevista que a tornou famosa na ufologia brasileira, na qual o objeto havia se tornado algo «de suprema beleza», com quatro metros de comprimento, e uma luz «imensamente maior que o meu carro» havia descido sobre seu Volkswagen na estrada para Belém. Os dois relatos existem. O primeiro foi posto no papel em 1977.
Fontes: Material de missão da Operação Prato e resumo de inteligência do SNIRegistro de Observações de OVNI — Pará, setembro de 1977 a novembro de 1978Entrevista com Wellaide Cecim Carvalho
Chega a Operação Prato
As autoridades locais pediram ajuda, e o 1º Comando Aéreo Regional, em Belém, enviou sua seção de inteligência. O comandante em campo era o capitão Uyrangê Bolívar Soares Nogueira de Hollanda Lima; seu sargento e relator, que escreveria quase todos os relatórios, era João Flávio de Freitas Costa. Levaram câmeras Minolta e Yashica com teleobjetivas, três filmadoras Canon, filme de alta sensibilidade, binóculos e rádios, e montaram postos de observação na ilha e no litoral do continente. Antes de começar, sobrevoaram Colares à noite com um helicóptero para ver se os moradores o confundiriam com o bicho. A primeira missão foi de 20 de outubro a 11 de novembro, uma segunda de 25 de novembro até dezembro, e o registro mostra a equipe ainda em vigília em 22 de dezembro.
Fontes: Registro de Observações de OVNI — Pará, setembro de 1977 a novembro de 1978Material de missão da Operação Prato e resumo de inteligência do SNIA entrevista de 1997 de Ademar José Gevaerd com o coronel Uyrangê Hollanda
«Entrei como advogado do diabo»
Hollanda era, segundo seu próprio relato posterior, o homem errado para mandar se a Força Aérea queria gente disposta a acreditar. «Entrei como advogado do diabo», disse em 1997; suas primeiras explicações foram «Pássaros. A plumagem de uma coruja refletindo o luar», e ele passou dois meses dizendo não ao seu comandante. Então, em Baía do Sol, na noite de 22 de outubro, viu uma luz azul que comparou a um maçarico de solda; o registro a anota, entrada 012, com um capitão e dois civis como testemunhas. Houve noites em que ficou sob o que chamou de um disco negro pairando a quinhentos pés de altura, pulsando em amarelo. Houve a noite no rio Guajará, perto de uma olaria, em que a equipe fotografou um objeto «como uma bola de futebol americano» com o que pareciam pequenas janelas, e depois outra coisa, enorme e azul, que ele chamou de «um Sol Azul». Um morador da região que estava lá contou à Força Aérea que uma escotilha se abrira e dela saíra uma figura pequena num traje justo; a Força Aérea anotou isso também, na entrada 017. «E se esses caras vierem e nos abduzirem?», lembrava Hollanda de ter perguntado ao seu sargento.
Fontes: A entrevista de 1997 de Ademar José Gevaerd com o coronel Uyrangê HollandaRegistro de Observações de OVNI — Pará, setembro de 1977 a novembro de 1978
As luzes entraram no registro militar
O registro não é uma narrativa, mas um livro de assentamentos: 130 entradas numeradas de quinze localidades, de 2 de setembro de 1977 a 28 de novembro de 1978, cada uma com horário, direção, cor, forma, movimento e esboço. A entrada 001 é uma mulher na rodovia PA-17 que viu um prato invertido, amarelo passando a vermelho, com um chiado «como de um dínamo». Cerca de metade das entradas é da própria equipe da Força Aérea. A entrada 058 é o capitão Hollanda sozinho, em 28 de novembro, observando algo emitir «uma série de quatro feixes de luz azul». A entrada 076 é uma fazenda onde a equipe tirou vinte e seis fotografias numa só noite. As duas últimas entradas são de pilotos de companhias aéreas. Em 14 de fevereiro de 1979, o comandante regional enviou a pasta inteira — 159 folhas, 130 registros — ao Estado-Maior da Aeronáutica, em Brasília, onde ela sumiu nos arquivos por trinta anos.
Fontes: Registro de Observações de OVNI — Pará, setembro de 1977 a novembro de 1978Ofício: Remessa de registro de observações de OVNIOs OVNIs no Arquivo Nacional
Uma fotografia a velocidade impossível — e a Estrela d’Alva
A alegação mais espetacular do dossiê é também aquela que o próprio dossiê desmente. Uma das primeiras equipes estimou uma luz a cerca de 3.000 metros de altitude e calculou sua velocidade, «empiricamente», em 30.000 quilômetros por hora. Quando o filme foi revelado, registra o resumo de inteligência, a imagem que mais havia impressionado a todos «foi identificada, pelo chefe da equipe, como a fotografia que ele havia tirado da Estrela d’Alva» — Vênus. O resumo menciona o «medo de cair no ridículo diante dos colegas» que os oficiais sentiam. Décadas depois, o filho do sargento acrescentou um epílogo vindo do laboratório fotográfico da família: quando jovem, ajudando a copiar os negativos do pai, contou, ele se divertia ampliando qualquer pontinho brilhante até parecer um disco voador, e algumas dessas cópias ganharam o mundo como autênticas.
Fontes: Material de missão da Operação Prato e resumo de inteligência do SNIOperação Prato: revelações de Fernando Costa
O que a equipe de campo acreditava ter visto
O relatório completo do sargento sobre a primeira missão nunca foi divulgado oficialmente, mas vazou. Em 1991, uma revista de ufologia o publicou em fac-símile, e uma investigação da Força Aérea em setembro daquele ano confirmou que o documento era o escrito pelo «1S João Flávio de Freitas Costa», já na reserva, ele próprio um entusiasta de OVNIs, e que estava garimpando ouro em Serra Pelada quando foram procurá-lo. É nos comentários do relatório que está a famosa conclusão: os objetos, escreveu a equipe, deslocavam-se em altitudes e direções variáveis, em manobras complexas que mostravam que eram «dirigidos de forma inteligente». Esse era o julgamento dos homens em campo. A Força Aérea nunca o adotou, e um de seus oficiais já havia dito à imprensa de Belém que todo o caso «não passava de uma simples ilusão de ótica por parte da população, que é de baixo nível intelectual».
Fontes: Informação sobre a publicação, em 1991, do relatório de missão da Operação PratoDocumentos oficiais liberados e vazados sobre a Operação PratoMaterial de missão da Operação Prato e resumo de inteligência do SNI
Dois médicos, dois pacientes, um placebo
Junto a esse relatório vazado há um anexo de duas páginas de uma equipe médico-psiquiátrica à parte da Força Aérea, que percorreu Colares, Vigia e Santo Antônio do Umbituba e examinou duas pessoas minutos depois de elas dizerem que a luz as havia tocado. As duas tinham pulso acelerado, tremores, calor, lágrimas, dificuldade para falar e posturas contraídas. Uma recebeu um tranquilizante. A outra recebeu sulfato ferroso — um comprimido de ferro — como placebo, e ouviu que aquilo era a cura. De manhã, nenhuma das duas sentia mais nada além de cansaço. O diagnóstico dos médicos foi uma descarga normal de adrenalina passando de vizinho para vizinho num clima de histeria coletiva. O anexo não registra o exame de nenhuma queimadura.
Fontes: Por dentro do relatório médico-psiquiátrico da Operação PratoDocumentos oficiais liberados e vazados sobre a Operação Prato
A ordem de parar
O registro anota o fato às 18h30 de 9 de novembro: um sargento chegou de Belém com a ordem de suspender a missão, e a equipe ficou presa na ilha por falta de balsa. «“A Operação está cancelada.” Tudo bem», lembrou Hollanda. «Você batia continência». Vinte anos depois, ele ainda não tinha feito as pazes com aquilo. Falou em mais de quinhentas fotografias e em filmes, dezenas deles; a BBC mais tarde calcularia o material em 500 imagens, dezesseis horas de filme e duas mil páginas, números que vêm de pesquisadores posteriores, e não de algum inventário preservado. O Arquivo Nacional guarda fotocópias de luzes borradas, esboços, formulários e resumos. Os filmes, observa seu guia, até agora não foram disponibilizados pela Força Aérea. «Acabou para a Força Aérea», disse Hollanda, «mas não para mim».
Fontes: Registro de Observações de OVNI — Pará, setembro de 1977 a novembro de 1978A entrevista de 1997 de Ademar José Gevaerd com o coronel Uyrangê HollandaÓvnis no Brasil: o que foi a Operação Prato, investigação da ditadura sobre fenômenos ufológicosOs OVNIs no Arquivo Nacional
O coronel rompe vinte anos de silêncio
Em agosto de 1997, os ufólogos Ademar Gevaerd e Marco Antônio Petit sentaram-se com Hollanda, então coronel da reserva, em Cabo Frio. O que ele lhes contou ia muito além do dossiê. As luzes sabiam onde sua equipe estava. Depois da operação, disse, dois seres de cerca de um metro e meio de altura, vestidos com algo parecido com roupas de mergulho, apareceram em seu quarto e lhe disseram: «Calma. Não vamos lhe fazer mal algum». Ele trazia um ponto vermelho no braço esquerdo desde 1977; seu sargento, que depois morreu de um AVC, tinha um na perna. Deu uma única palestra pública, em 7 de setembro. Em 2 de outubro de 1997, enforcou-se com o cordão de um roupão. Gevaerd, que o conhecia, disse depois que ele já havia tentado o suicídio antes e sofria de depressão. A coincidência de datas alimentou todas as histórias de silenciamento, e nada no registro liga sua morte a outra coisa que não a sua própria doença. O que a entrevista deixa é a voz de um comandante, duas décadas depois, descrevendo coisas que suas fotografias não conseguem mostrar.
Fontes: A entrevista de 1997 de Ademar José Gevaerd com o coronel Uyrangê HollandaA verdade sobre a morte do coronel Uyrangê HollandaÓvnis no Brasil: o que foi a Operação Prato, investigação da ditadura sobre fenômenos ufológicos
Do dossiê sigiloso ao arquivo nacional
A Força Aérea começou a enviar seus registros sobre OVNIs ao Arquivo Nacional em 2009 e tornou a transferência uma política em 2010; em agosto daquele ano, os jornais contaram 1.562 páginas. Em 2024, o arquivo liberou o próprio dossiê de 86 páginas do serviço de inteligência sobre a Operação Prato. Jacques Vallée, que foi ao Pará em 1988 e a quem Hollanda mostrou o dossiê em Belém, voltou com uma frase que continua de pé: «Até agora não há nenhum caso comprovado de morte relacionada aos objetos». O folclore agora tem um código de arquivamento, BR DFANBSB ARX.0.0.184, e quase trinta anos depois da morte do coronel as mesmas perguntas continuam na mesma pasta. O que os homens da Segunda Seção fotografavam quando não estavam fotografando Vênus? O que deixou as marcas no seio de Claudomira? E por que a Força Aérea parou de olhar na noite em que seu próprio capitão achava que finalmente estava vendo alguma coisa?
Fontes: Aeronáutica libera documentos sobre aparição de óvnisArquivo Nacional libera relatos de brasileiros sobre supostos OvnisOs OVNIs no Arquivo NacionalAventuras investigativas no Brasil: a viagem de Jacques Vallée em 1988
Fontes e entrevistas
As fontes permanecem no idioma original; seus títulos e descrições estão traduzidos.
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