Voltar aos encontros
DOSSIÊ / 058 — 1972

Os tiros na fazenda Braeside

Em 1972, um trabalhador da fazenda Braeside viu uma bola de fogo suspensa sobre o mato. Ao meio-dia, o fazendeiro e dois policiais já tinham disparado uns quinze tiros de fuzil contra um objeto escuro e brilhante que recuava diante de vozes, mudava de cor quando era atingido e se afastou rompendo a vegetação, deixando nove marcas no barro. Um general da polícia disse não conhecer nenhuma lei que proibisse atirar em invasores do espaço sideral.

Ampla fotografia colorida de um campo verde salpicado de espinheiros baixos atrás de uma cerca de arame frouxa com mourões de madeira, com uma estrada asfaltada de duas pistas que se perde na distância à direita, sob um céu de tempestade carregado, em camadas de azul-acinzentado, com faixas de nuvens baixas sobre os morros ao longe.
1972
Savana de espinheiros e terras de fazenda cercadas perto de Middledrift, cerca de 30 quilômetros a leste de Fort Beaufort, sob um céu de tempestade em 2008. Foto: Lysippos, CC BY-SA 3.0, via Wikimedia Commons.

Um fogo perto do krans

A segunda-feira, 26 de junho de 1972, foi uma manhã de inverno clara e amena no Cabo Oriental. Em Braeside, uma fazenda a uns 15 quilômetros de Fort Beaufort, um trabalhador que os registros mais tarde chamariam de Boer de Klerk estava no veld, perto do reservatório da fazenda, quando viu fumaça junto ao krans, o afloramento rochoso, e depois uma bola de fogo suspensa à altura das árvores. A fazenda pertencia a Bennie Smit, a quem os jornais descreveriam como um encanador de East London com os pés no chão, atirador de primeira e, anos depois, caçador consagrado. Pelo relato do próprio Smit, publicado no Sunday Times no domingo seguinte, “Às 9 da manhã, um dos meus trabalhadores contou que tinha visto fumaça perto do krans e depois uma grande bola de fogo.” Smit foi ver. “Dito e feito, lá estava uma bola de fogo, pairando à altura da copa das árvores. Tinha uns 2½ pés de diâmetro e soltava labaredas. Meu homem gritou, e ela se deslocou de lado por umas 300 jardas e sumiu atrás de um arbusto grande.” Quando voltou, estava mudando de cor: “Quando olhei pela primeira vez era uma grande bola vermelha, mas agora estava verde, e de repente passou a um branco amarelado.” Nove noites antes, à meia-noite, um vizinho a cerca de um quilômetro dali, Fraser Moss, tinha ouvido um ruído de tambor no céu e não vira nada.

Fontes: The 1972 South African ‘Flap’The South African FlapStop Press: South Africa: Farmer and Police fire shots at UFONotice to unidentified flying objects: try to avoid South AfricaSouth African police fire at UFO

O .303

“Fiquei chocado e senti que aquela coisa podia ser perigosa”, disse Smit. “Corri de volta para casa para pegar meu fuzil .303 e telefonei para a polícia. Voltei ao local e dei vários tiros. Tenho certeza de que o meu oitavo tiro o atingiu, porque ouvi um baque. Ele subiu e desceu e sumiu outra vez atrás das árvores.” Vinte e cinco anos depois, ele contava a história com mais medo. Tinha entrado no mato achando que seus trabalhadores tinham ido para o pasto errado e acendido uma fogueira para se aquecer, e os encontrou encolhidos num galpão, murmurando sobre alguma coisa no mato. “Quando vi aquilo, fiquei todo arrepiado. Disparei para casa, peguei meu .303 e mandei alguém chamar a polícia. Sabia que estava seguro se tivesse a minha arma.” Na versão publicada pelo jornal dinamarquês Aalborg Stiftstidende, Smit explicou por que não tinha atirado antes: no começo, seus homens estavam na linha de tiro, e, quando o objeto baixou, ele atirou na sua estrela.

Fontes: The 1972 South African ‘Flap’The South African FlapFarmer shoots at UFO in 1972UFO fik en varm velkomst i Sydafrika

Dois policiais e uma piada sobre marcianos

Na delegacia de Fort Beaufort, cidade de guarnição das antigas guerras de fronteira, no encontro dos rios Kat e Brak, a chamada chegou ao sargento P. C. Kitching. Ele tinha oito anos de Polícia Sul-Africana. Convenceu o comandante da delegacia, o subtenente P. R. van Rensburg, a ir com ele; Van Rensburg diria mais tarde que Kitching irrompeu três vezes em sua sala antes que ele cedesse. Chegaram a Braeside por volta das nove ou das dez, conforme o relato, e encontraram Smit saindo do mato fechado, suando. “As primeiras palavras de Bennie foram que ele achava que o OVNI podia ser do espaço sideral”, lembrou Van Rensburg. “Aí eu brinquei que os marcianos tinham vindo roubar as ovelhas dele. Então eu o vi saindo das árvores e não quis acreditar nos meus olhos.” Kitching, num relato que escreveu décadas depois para um investigador canadense, lembrava de outro modo os primeiros minutos silenciosos. Sete pessoas, quatro trabalhadores, dois policiais e o fazendeiro, ficaram olhando para um morro a uns 150 metros, sem ver nada, céticos. Então “vi um objeto que saiu do mato fechado e da vegetação ao pé do morro e pairou logo acima da vegetação. Ele se moveu devagar para a nossa direita e de novo desapareceu atrás do mato fechado… Tive a sensação de que estávamos sendo observados.”

Fotografia colorida de uma torre redonda e atarracada de blocos de arenito castanho-mel desgastados, com uma única janelinha, uma caixa de pedra saliente perto do topo à esquerda e uma escada externa vermelho-ferrugem subindo até uma porta, erguida acima de um gramado e de um canteiro de pedras com aloés e agaves, sob um céu azul com nuvens brancas.
A torre Martello de Fort Beaufort, concluída em 1846 para as guerras de fronteira e tida como a única construída longe do mar, fotografada em 1988. O sargento Kitching e o subtenente van Rensburg partiram para Braeside da delegacia desta velha cidade de guarnição. Foto: Janek Szymanowski, CC BY-SA 3.0, via Wikimedia Commons. Fonte da imagem · CC BY-SA 3.0 · Janek Szymanowski

Fontes: Stop Press: South Africa: Farmer and Police fire shots at UFOFarmer shoots at UFO in 1972South African police fire at UFOFort Beaufort

Uma coisa preta e brilhante que se esquivava

O que os policiais viram não foi uma bola de fogo. “Depois que o sr. Smit e o sargento Kitching deram alguns tiros na direção da bola de fogo”, contou Van Rensburg à imprensa, “vimos um objeto redondo, preto e brilhante, de uns 2½ pés de diâmetro, sair de trás de uma árvore. Ele sumiu de vista devagar e depois reapareceu. Os tiros não surtiram efeito, mas, quando alguém se aproximava, ele se esquivava para trás dos arbustos.” Kitching, falando naquele ano com o correspondente da Flying Saucer Review Ivan Clark, descreveu uma coisa em forma de ovo, de uns três metros de comprimento, flutuando deitada e meio escondida atrás da vegetação, azul-escura como o metal de um revólver, que começou a brilhar inteira em vermelho enquanto eles olhavam; depois, uma luz forte, como uma estrela, apareceu num dos lados, piscando a intervalos. Smit, na matéria de agência, viu “uma protuberância como uma estrela na ponta direita do objeto oval, algo que parecia crescer de tamanho à medida que a luz branca que emitia ganhava intensidade”. O Natal Daily News, informado pela polícia em Grahamstown, ficou com “um objeto oval, cor de metal de arma, com cerca de 3/4 m de diâmetro. Brilhava e mudava com frequência de cor, do verde para o amarelo e para o branco.” O que quer que fosse, parecia escutar. Quando os trabalhadores gritavam do mato, ele afundava de vista; quando alguém se aproximava, ele se afastava. Os homens de Smit tentaram tocá-lo para fora do mato, disse uma reportagem, mais ou menos como tocariam o gado.

Fontes: The 1972 South African ‘Flap’The South African FlapLanding ved Fort Beaufort: interview med politifolkene, and Den sydafrikanske mini-bølge 1972Notice to unidentified flying objects: try to avoid South AfricaMysterious VisitorsWorld Atlas of UFOs

Quinze tiros

Foi Kitching quem pegou o fuzil de Smit. “Dei três tiros nele, acertando com cada um”, escreveu. “Enquanto atirava, vi uma luz forte e nítida, tremeluzindo à direita da nave, logo acima dela.” Os policiais disseram a Clark em 1972 que, dos quinze disparos, o sétimo acertou, com o que Kitching chamou de um som surdo, e que o objeto balançou de um lado para o outro e depois passou pelo vermelho, pelo verde e pelo amarelo. As primeiras reportagens contaram pelo menos quinze balas de .303, algumas disparadas por Smit a apenas sete metros; uma matéria de agência neozelandesa fazia a polícia atirar de pistola a oito jardas. Segundo um relato posterior, depois que Smit atirou na luz semelhante a uma estrela, o objeto parou de mudar de cor e continuou como um corpo escuro cor de metal de arma. Nada daquilo pareceu lhe fazer mal. Smit disse que ele se moveu devagar enquanto os quinze tiros eram disparados e que seu curso não se alterou. Anos depois, disse que as balas tinham ricocheteado. Um dia perguntariam a Van Rensburg por que ele tinha mandado o sargento atirar. Numa citação recolhida pelo pesquisador americano Bob Gribble, ele respondeu apenas: “O assunto está encerrado.”

Fontes: South African police fire at UFOLanding ved Fort Beaufort: interview med politifolkene, and Den sydafrikanske mini-bølge 1972Mysterious VisitorsNotice to unidentified flying objects: try to avoid South AfricaLooking BackThe 1972 South African ‘Flap’Farmer shoots at UFO in 1972

O lenço na ponta da vara

Então Smit entrou atrás dele; na versão que os policiais contaram a Clark, essa caminhada veio primeiro, e a saraivada só depois que ela fracassou. Os homens cortaram um caniço, ou uma vara, e amarraram um lenço branco na ponta para que os policiais na elevação pudessem acompanhá-lo pelo mato e gritar orientações. “Eu estava tão assustado quanto os outros e fiquei aliviado quando Bennie decidiu entrar no mato com a vara”, disse Van Rensburg em 1997. Smit o encontrou. “De repente o vi a umas 20 jardas, agora branco-acinzentado, dei dois tiros rápidos, mas, com um zumbido alto, ele desviou por cima das copas das árvores, abrindo caminho pela folhagem. Sumiu de vista rapidamente.” No Sunday Tribune, acrescentou um detalhe ao qual escritores posteriores voltariam sempre: “Quando ele desapareceu no mato denso, nós o ouvimos quebrando a vegetação rasteira, mas, quando fomos atrás, não vimos nenhum sinal da sua passagem.” A Frank Morton, representante da APRO na África do Sul, ele insistiu que as árvores e os arbustos tinham se aberto para a coisa passar, e que nenhum deslocamento de ar fizera aquilo. Ela não deixou nada queimado. Pelo relato de Kitching, ficou de pé antes de desviar. Os observadores na elevação nunca a viram partir. Kitching nunca entendeu, escreveu, como o objeto podia “ter desaparecido no ar”. O cachorro de Smit, seu companheiro inseparável, esteve sumido o tempo todo.

Fotografia colorida de uma ponte de pedra de um só arco, com um parapeito branco de concreto de pilares e corrimão, sobre uma ravina tomada por mato verde e denso, capim alto e um arbusto de flores amarelas em primeiro plano, com um cata-vento e o telhado de uma casa entre as árvores ao fundo, sob um céu pálido e nublado.
A Victoria Bridge, construída na década de 1840 para levar a estrada militar sobre o rio Kat em Fort Beaufort, em 2012. O mato ribeirinho da região é o tipo de cobertura em que o objeto entrava e saía em Braeside. Foto: Lugerda, CC BY-SA 3.0, via Wikimedia Commons. Fonte da imagem · CC BY-SA 3.0 · Lugerda

Fontes: Farmer shoots at UFO in 1972The 1972 South African ‘Flap’The South African FlapSouth African police fire at UFO

Nove marcas no barro

Onde o objeto estivera suspenso, Smit encontrou um círculo do que a matéria de agência chamou de marcas como de punhos na areia. Na quarta-feira, o brigadeiro A. Vosloo, comissário divisional da polícia para o Cabo Oriental, saiu de Grahamstown ao amanhecer à frente de uma equipe; doze policiais vasculharam uns quatro quilômetros quadrados, e um instrutor de voo, Sandy Matthew, e um fotógrafo amador, Brian Lawrie, tiraram umas quarenta fotografias aéreas em busca de mato chamuscado. A polícia fotografou as marcas e fez moldes de gesso. Uma ordem para liberar as fotografias à imprensa foi depois revogada. Clark contou três grupos de três marcas no barro úmido, cada uma com uns 6,5 centímetros de diâmetro e levemente torcida no sentido horário, como se uma perna tivesse sido aparafusada no chão; Van Rensburg desenterrou uma para lhe mostrar. C. S. Kingsley, professor de geologia da Universidade de Fort Hare que fora geólogo do governo na expedição antártica de 1967, examinou amostras e disse que as marcas “definitivamente não eram de animal nem de humano”. Estrias finas e paralelas nelas sugeriam “metal, e não algo macio e carnudo”. O Pretoria News descreveu as marcas como redondas, com uns dez milímetros de profundidade no centro e mais rasas em direção à borda, “como se um objeto esférico as tivesse feito”. Van Rensburg nunca esqueceu a profundidade. “Havia nove marcas no barro, e a nave de três pernas parecia ter pousado ali três vezes”, disse em 1997. “As marcas eram muito fundas, pelo menos o dobro da profundidade que meus sapatos de salto faziam. Eu pesava 90 kg e mal deixava marca.”

Fontes: Stop Press: South Africa: Farmer and Police fire shots at UFOMysterious VisitorsThe 1972 South African ‘Flap’Landing ved Fort Beaufort: interview med politifolkene, and Den sydafrikanske mini-bølge 1972The South African FlapFarmer shoots at UFO in 1972

O acidente de trem e os vidros de compota

As amostras fizeram uma viagem estranha. Um pacote de moldes de gesso seguiu de trem para o norte, rumo aos laboratórios do Conselho de Pesquisa Científica e Industrial (CSIR) em Pretória, em 29 de junho, e nunca chegou: The Star noticiou que ele se perdeu num acidente ferroviário em Norvalspont. Van Rensburg disse mais tarde que se oferecera para levar as amostras pessoalmente e recebera ordem de mandá-las de trem. Um segundo pacote chegou a Pretória: duas amostras embaladas em vidros de compota de frutas, uma de solo comum e outra do local do pouso. “As amostras de solo foram testadas de várias maneiras”, disse um porta-voz do CSIR, “mas não se encontrou nenhuma diferença significativa entre elas.” O Pretoria News noticiou que, se alguma coisa tocara o chão, fizera isso sem alterar o solo, e que nada indicava um foguete.

Fontes: The 1972 South African ‘Flap’Farmer shoots at UFO in 1972Occupants reported in Cape Province, and UFO damage at Rosmead?

É legal atirar num disco voador?

Em um ou dois dias, como disse a Flying Saucer Review, a imprensa sul-africana estava fazendo a festa. A questão não era se os homens tinham visto alguma coisa. O correspondente da New Zealand Press Association em Joanesburgo resumiu: “O debate nacional diz respeito ao protocolo adequado para receber visitantes extraterrestres.” Um general da polícia, citado como D. A. Bester, disse: “Não conheço nenhuma lei que proíba atirar num invasor do espaço sideral.” O Natal Mercury ficou horrorizado que “policiais e um fazendeiro tenham tentado derrubar do céu, em plena luz do dia, o que poderia ter sido uma nave espacial de um planeta amigo”. Tom Geary, diretor do Planetário de Joanesburgo, aconselhou: “Atirar neles é a última coisa que se deve fazer. Mostre que você é amigável e observe-os pelo maior tempo possível.” Uli Resnik, um cientista de Joanesburgo, disse que a polícia tivera sorte de o objeto ser imune às balas: “Foi suicídio atirar nele. Se tivesse explodido, poderia ter destruído a região inteira.” O professor Arthur Bleksley, uma das vozes científicas mais conhecidas do país no assunto, perguntou por que visitantes viriam justo a Fort Beaufort, e o Daily Dispatch, de East London, respondeu num editorial que talvez eles gostassem de “um sistema sensato de estradas pelas quais os carros de fato andam sem obstrução”, de ar não poluído e de “uma crosta terrestre que não está crivada de túneis de mineração”. Os superiores de Van Rensburg acharam menos graça. “Tudo o que eles queriam mesmo saber era com base em que lei tínhamos decidido atirar na nave, e um superior não gostou nada quando eu brinquei: ‘a Lei de Roubo de Gado’.” Ele e Kitching, disse, foram severamente repreendidos.

Fontes: Occupants reported in Cape Province, and UFO damage at Rosmead?Notice to unidentified flying objects: try to avoid South AfricaLanding ved Fort Beaufort: interview med politifolkene, and Den sydafrikanske mini-bølge 1972Looking BackThe 1972 South African ‘Flap’Mysterious VisitorsFarmer shoots at UFO in 1972

A cidade vem assistir

A coisa, ou algo parecido com ela, não ia embora. Na noite de domingo, 2 de julho, uma multidão em Fort Beaufort viu uma luz em forma de disco, piscando em vermelho, azul, verde e amarelo, passar sobre a cidade lançando um raio constante para baixo, e mandou dois meninos correndo à delegacia para avisar que ela parecia estar pousando. Na noite seguinte, a câmara municipal suspendeu sua sessão, e nove carros cheios de gente foram até Braeside e, segundo The Star, “viram um objeto subir da vegetação rasteira e seguir na direção de Grahamstown”. Em 7 de julho, um homem no Savoy Hotel, na cidade, viu um OVNI pairando sobre a fazenda de Smit. Smit tinha uma teoria própria. Diante de uma fotografia de uma luz sobre Port Elizabeth, disse ao Rand Daily Mail em 8 de julho que a coisa era “definitivamente feita pelo homem”, que tinha uma base na sua fazenda, e: “Eu vou pegá-la.” Pretendia, ouviu Clark, usar uma rede grande. Kitching lembrava que o engenheiro municipal, o dr. D. Verschoor, interrompeu uma sessão da câmara alguns dias depois dos tiros para mostrar um OVNI aos vereadores. Em 9 de julho, Dennis Gordon, repórter do Rand Daily Mail e, ao que parece, o homem que entrevistara Smit de pé em seu campo recém-plantado de lucerna, ou alfafa, viu no céu uma luz brilhante que não soube explicar. Na versão contada em 1997, uma delegação do exército vinda de Grahamstown isolara a fazenda por quase dois dias, e curiosos com cestas de piquenique assistiam da beira da mata vizinha de Fort Fordyce; um porta-voz militar em Grahamstown disse ao mesmo repórter que todos os oficiais presentes em 1972 já estavam reformados e que todos os arquivos tinham sido destruídos.

Ampla fotografia colorida vista do alto sobre um largo vale verde salpicado de pequenas propriedades e aldeias e cortado por linhas escuras de árvores, com morros ondulados e um cume pontiagudo erguendo-se na distância enevoada sob um céu azul-claro.
O vale do Tyhume visto do passo de Hogsback, nos montes Amathole, a região de morros a leste de Fort Beaufort, em 2008. A Universidade de Fort Hare, onde lecionava o geólogo que examinou as marcas, fica onde o vale se abre, em Alice. Foto: Lysippos, CC BY-SA 3.0, via Wikimedia Commons. Fonte da imagem · CC BY-SA 3.0 · Lysippos

Fontes: The 1972 South African ‘Flap’South African police fire at UFOFarmer shoots at UFO in 1972Landing ved Fort Beaufort: interview med politifolkene, and Den sydafrikanske mini-bølge 1972

O reservatório arrebenta

Na madrugada de sábado, 8 de julho, doze dias depois dos tiros, ouviram-se duas explosões e viram-se luzes piscando sobre a região. Naquela noite, ou ao raiar do dia segundo outros relatos, em Braeside, o reservatório de Smit, um tanque de tijolo e cimento com uns oito metros de diâmetro e milhares de galões de água, arrebentou. Kitching lembrava de grandes blocos de concreto espalhados a até vinte metros; em 1997, os pedaços ainda estavam espalhados pelo mato, a vinte e cinco metros. Na época, Van Rensburg achou que o colapso podia ser simples desgaste. As versões posteriores o aproximaram do objeto. Uma revista francesa de OVNIs, resumindo uma belga, noticiou em 1973 que Smit dissera à polícia ter visto o OVNI minutos antes, e se perguntava se o reservatório teria sido uma retaliação por sua agressão. Cynthia Hind, a investigadora radicada em Harare, escreveu que Smit lhe admitiu ter ouvido o objeto pouco antes de o reservatório arrebentar, o mesmo zumbido, baixo sobre seu telhado, rumo à mata de Fordyce. “Não saí para olhar. Para quê, ninguém queria acreditar em mim.” Hind o arquivou entre os casos em que os OVNIs pareciam atraídos pela água. “Coincidência”, perguntou, “ou algum significado relacionado à ÁGUA?” E em agosto o objeto voltou. O cunhado de Smit, R. Rudman, e vários trabalhadores da fazenda observaram uma luz sobre a propriedade durante dez minutos; ela foi esmaecendo devagar, diminuiu e sumiu enquanto ele ia buscar uma câmera. De Klerk, que a vira primeiro, disse que era a mesma coisa que vira em junho.

Fontes: The 1972 South African ‘Flap’South African police fire at UFOFarmer shoots at UFO in 1972En Afrique du SudUFO Afrinews, n.º 5Water and its significance with regard to UFOs: Case No. 27, Fort Beaufort, Cape, South AfricaReport from South Africa and Rhodesia

“Como é que se atira num fantasma?”

O caso se espalhou pelo Cabo Oriental e além. Naquele novembro, quando buracos estranhos apareceram numa quadra de tênis de uma escola em Rosmead, o comandante da polícia em Middelburg disse que os relatórios de seus homens batiam com o objeto de Fort Beaufort, e o chefe dos correios de Middelburg prometeu: “Não atiraríamos no objeto como fizeram em Fort Beaufort.” Charles Bowen, da Flying Saucer Review, dedicou um suplemento especial ao caso; uma década depois, citou um comentarista de jornal segundo o qual os homens só tinham agido segundo o tradicional modo de vida sul-africano: “o que não entendemos, nós abatemos a tiros”. Hind deu ao caso um capítulo de seu livro de 1982, UFOs: African Encounters, e disse a uma plateia em Londres, em 1984, que na época ninguém sequer mencionara o espaço sideral, embora Van Rensburg lembrasse de outro modo as primeiras palavras de Smit. Para De Klerk, que o viu primeiro, era um fantasma, “e como é que se atira num fantasma?” A própria Hind se perguntava se não teria sido um satélite muito estranho, um tanto sinistro. O que mais a intrigava era o modo como ele se movia: “o objeto de fogo reagia às vozes dos trabalhadores”.

Fontes: Report from South Africa and RhodesiaOccupants reported in Cape Province, and UFO damage at Rosmead?Landing ved Fort Beaufort: interview med politifolkene, and Den sydafrikanske mini-bølge 1972The aliens strike backPalestra de Cynthia Hind à BUFORA, Londres, 3 de novembro de 1984World Atlas of UFOs

O Bar do OVNI

Smit ficou com o fuzil. Em 1997, aos sessenta e sete anos, contou de novo a história a David Macgregor, do Sunday Independent, tomando vinho tinto no bar do Savoy Hotel de Fort Beaufort, que na época lhe pertencia e que os moradores tinham rebatizado de Bar do OVNI enquanto ele estava na França; ele só deixou o nome ficar depois que ameaçaram um boicote. Tinha sido ridicularizado durante vinte e cinco anos, disse, por professores e cientistas, entre outros. “Continuo não acreditando em alienígenas e duvido até que existam, apesar do que vi. Fiquei todo arrepiado.” Passara a achar que era uma nave espiã militar que tinha quebrado sobre sua fazenda. “Eu queria pegar o OVNI”, disse, “e aí teríamos respostas de verdade. Ele ficou uma semana na minha fazenda, mas eu falhei. Se eu fosse o único a vê-lo, teria me convencido de que estava louco ou bêbado. Pelo menos cinco [de] nós o vimos naquela segunda de manhã, e não podíamos estar todos loucos.” Van Rensburg, aposentado em Port Alfred, tinha recusado talk shows americanos, como Smit. “Sinceramente, não sei o que era. Se um cientista viesse amanhã com provas e dissesse que eram alienígenas, eu concordaria”, disse. “Se dissessem que não eram, eu também concordaria. Continuo achando que as marcas não foram feitas por um ser humano.”

Fontes: Farmer shoots at UFO in 1972

VÁ À FONTE

Fontes e entrevistas

As fontes permanecem no idioma original; seus títulos e descrições estão traduzidos.

Stop Press: South Africa: Farmer and Police fire shots at UFOFlying Saucer Review, vol. 18, n.º 4, julho–agosto de 1972, pp. 26–27 · reproduzindo a matéria da Sapa no The Star, Joanesburgo, 27 de junho de 1972 · Internet ArchiveMysterious VisitorsBrinsley Le Poer Trench · Souvenir Press, 1973, pp. 152–153 · reproduzindo “Saucer Trail Probe”, Natal Daily News, 28 de junho de 1972 · Internet ArchiveThe 1972 South African ‘Flap’C. David Oakley-Hill · publicado originalmente na GEMINI, vol. 1, n.º 4, outubro–dezembro de 1972; reeditado no New BUFORA Journal, n.º 7, abril de 2003, pp. 26–33 · cronologia datada que cita o Sunday Times, o Sunday Tribune, o Star, o Rand Daily Mail e o Pretoria News · Internet ArchiveThe South African FlapThe A.P.R.O. Bulletin, setembro–outubro de 1972, pp. 1, 3–4 · a partir de recortes e de um contato pessoal com Bennie Smit por Frank D. Morton, representante da APRO na África do Sul · Internet ArchiveLanding ved Fort Beaufort: interview med politifolkene, and Den sydafrikanske mini-bølge 1972UFO-NYT, n.º 1, janeiro–fevereiro de 1973, pp. 13–15 · traduções dinamarquesas da entrevista de Ivan Clark com os dois policiais e da parte 1 de “South African mini-wave, 1972”, de Charles Bowen, da Flying Saucer Review, vol. 18, n.º 5, setembro–outubro de 1972 · Internet ArchiveSouth African Mini-Wave, 1972—Part 2Charles Bowen · Flying Saucer Review, vol. 18, n.º 6, novembro–dezembro de 1972 · com o editorial do Daily Dispatch de 7 de julho de 1972 · Internet Archive, coleção Flying Saucer Review, arquivo 106Notice to unidentified flying objects: try to avoid South AfricaReportagem da New Zealand Press Association enviada de Joanesburgo, num jornal neozelandês, setembro de 1972 · UFO Newsclipping Service, n.º 42–43, outubro–novembro de 1972 · Internet ArchiveUFO Research Newsletter, vol. II, n.º 7Outubro–novembro de 1972 · resumindo a reportagem de Malcolm Balfour feita na fazenda para o National Enquirer, 15 de outubro de 1972 · Internet ArchiveUFO fik en varm velkomst i SydafrikaAalborg Stiftstidende, 29 de julho de 1972 · reproduzido em Ufologen, 1972, n.º 1 · Internet ArchiveList of reported UFO sightings in South AfricaWikipédia · seu verbete sobre Fort Beaufort dá o ano como 1971Report from South Africa and RhodesiaThe A.P.R.O. Bulletin, janeiro–fevereiro de 1973, pp. 4–5, 7 · Frank D. Morton sobre o retorno do objeto a Braeside em agosto de 1972 e o caso de Rosmead · Internet ArchiveEn Afrique du SudLumières dans la Nuit, n.º 124, 1973, pp. 18–19 · resumo de Visiteurs Spatiaux, n.º 29 (GESAG, Bruxelas), a partir de seu correspondente sul-africano John de Coster · Internet ArchiveThe aliens strike backCharles Bowen · The Unexplained: Mysteries of Mind, Space & Time, parte 66, Orbis, Londres, p. 1320 · Internet ArchivePalestra de Cynthia Hind à BUFORA, Londres, 3 de novembro de 1984BUFORA Bulletin, n.º 18, julho de 1985 · Internet ArchiveWater and its significance with regard to UFOs: Case No. 27, Fort Beaufort, Cape, South AfricaCynthia Hind · UFO Afrinews, n.º 4, março de 1991, pp. 17–18 · Internet ArchiveUFO Afrinews, n.º 5Cynthia Hind · janeiro de 1992, pp. 21–22 · sobre o reservatório que arrebentou em Braeside · Internet ArchiveWorld Atlas of UFOsJohn Spencer (org.) · Hamlyn, 1991 · com o ensaio de Cynthia Hind “UFOs within African culture” · Internet ArchiveLooking BackBob Gribble · MUFON UFO Journal, n.º 290, junho de 1992 · citando o The Star (Joanesburgo), 29 de junho de 1972, e o Auckland Star, 18 de setembro de 1972 · Internet ArchiveFarmer shoots at UFO in 1972David Macgregor · Sunday Independent (Joanesburgo), Eastern Cape News, 1997 · conforme republicado na lista de discussão UFO UpDates, 23 de novembro de 1997 · Wayback MachineSouth African police fire at UFOO relato do ex-sargento da polícia de Fort Beaufort que atirou no objeto, publicado por Brian Vike · The Vike Factor · outubro de 2013Occupants reported in Cape Province, and UFO damage at Rosmead?Flying Saucer Review, vol. 19, n.º 1, janeiro–fevereiro de 1973 · Internet Archive, coleção Flying Saucer ReviewFort BeaufortWikipédia · sobre a história de fronteira da cidade e sua torre Martello

Encontrou um erro ou conhece uma fonte melhor? Escreva para hello@uap.fun.

CONTINUE EXPLORANDO

Dossiês relacionados

Os homenzinhos de KellyDezessete anos antes, no Kentucky, homens de uma fazenda dispararam fuzis contra visitantes que pareciam intocados pelas balas.Cynthia HindA investigadora que manteve vivo o caso de Braeside na pesquisa africana de OVNIs e ouviu De Klerk chamá-lo de fantasma.O encontro na Escola ArielO caso africano mais famoso de Hind, em que as testemunhas eram crianças de escola em vez de policiais.O barranco de SocorroOutro policial, outro objeto à luz do dia no meio do mato e marcas de pouso medidas pelas autoridades.O pouso de Trans-en-ProvenceUma fazenda, um vestígio de pouso e amostras de solo enviadas a um laboratório nacional, com resultados muito diferentes.
O FÓRUM

Discuta este caso

Compare notas com outros leitores: detalhes das testemunhas, fontes e o que ainda não fecha. O fórum é em inglês.

Abrir a discussão