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DOSSIÊ / 048 — 1977

Quinze minutos na Pampa Lluscuma

Antes do amanhecer de 25 de abril de 1977, oito soldados chilenos nos Andes viram uma luz violeta descer a encosta em direção à sua fogueira. O cabo caminhou na direção dela e desapareceu. Quinze minutos depois, estava de volta, rindo de um jeito estranho, com uma barba de cinco dias e o relógio marcando o dia 30. Décadas depois, ele disse que nunca tinha sido abduzido. Os homens que estavam lá mantiveram o que viram.

Fotografia de um vasto altiplano coberto de capim ao entardecer, com um povoado de construções baixas e uma antena de rádio a meia distância, dois grandes vulcões nevados brilhando num rosa tênue ao fundo e uma lua cheia brilhante, baixa, num céu rosa e lilás à esquerda.
1977
A lua cheia ao lado do Parinacota e do Pomerape, os vulcões Payachata na fronteira entre o Chile e a Bolívia, ao entardecer de 30 de junho de 2024, vistos de Sajama, do lado boliviano. O altiplano chileno em torno de Putre fica atrás deles. Foto: Abihail Flores, CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons.

Duas estrelas descendo

O primeiro a vê-las foi Pedro Rosales, um dos dois recrutas de sentinela à porta das cavalariças. Faltava pouco para as quatro da manhã da segunda-feira, 25 de abril de 1977, no altiplano da Pampa Lluscuma, nos Andes do norte do Chile. O resto do grupo estava sentado em volta de uma fogueira, ao abrigo de um muro de pedra seca, cantando e trocando piadas com as sentinelas para não dormir no frio. Não havia lua. Desde umas dez e meia, as sentinelas vinham observando “estrelas” cruzando o céu. “Primeiro vi uma luz descendo, depois outra”, contou Rosales poucas horas depois, diante de um gravador. “Eram duas. Uma desceu deste lado do morro e a outra do outro lado.” Ele correu até a fogueira. “Cabo, venha ver uma luz que está no morro.” O cabo era Armando Valdés Garrido, de vinte e dois ou vinte e três anos, franzino, devoto e com cerca de cinco pés e cinco polegadas de altura. O que ele fez na meia hora seguinte o tornaria o soldado mais famoso da história da ufologia chilena, e o que disse sobre isso nos quarenta e sete anos seguintes o tornaria o mais exasperante.

Fotografia colorida, tirada da órbita, de um deserto de altitude marrom e profundamente erodido, com dois cones vulcânicos nevados no centro, o de cima perfeitamente cônico e com uma pequena cratera no cume, suas longas sombras caindo para a esquerda e a margem escura de um lago no alto à esquerda.
Parinacota e Pomerape, os vulcões gêmeos Payachata na fronteira entre o Chile e a Bolívia, vistos da Estação Espacial Internacional em 21 de junho de 2022, com o lago Chungará no alto à esquerda. Putre e a Pampa Lluscuma ficam uns quarenta e cinco quilômetros a oeste, além do lago. Foto: NASA (ISS067), domínio público, via Wikimedia Commons. Fonte da imagem · Public domain · NASA

Fontes: Secuestrados por extraterrestresOVNI de PutreA queda do cabo Valdés

As cavalariças de Lluscuma

Os jornais chamariam os homens de patrulha, voltando de uma ronda de rotina perto da fronteira boliviana. Na verdade, como pesquisadores posteriores estabeleceram, eram uma guarda de cavalariça. A Pampa Lluscuma, uma pastagem a poucos quilômetros do povoado de Putre, a cerca de 3.500 metros, abrigava os cavalos do destacamento de montanha que o Exército mantinha ali, e o serviço consistia em deixar sacos de aveia de molho, alimentar os animais e limpar as baias. Os sete recrutas estavam em Putre havia cerca de um ano: Julio Rojas, Germán Riquelme, Iván Robles, Humberto Rojas, Raúl Salinas, Juan Reyes e Rosales. Valdés, que estava lá havia dois anos, disse a entrevistadores em 2007 que nem sequer deveria estar no comando deles. Tinha sido mandado para as cavalariças naquela noite como castigo, contou, por chegar atrasado a reuniões: “Não me cabia estar ali; não eram meus homens.” A missão importava mais do que parecia. Em 1977, o governo militar do Chile se preparava para uma possível guerra em três frentes, contra o Peru, a Bolívia e a Argentina, e reforçava discretamente o norte. Os cavalos de Lluscuma faziam parte disso, e não eram algo que o Exército quisesse discutir.

Fotografia colorida de uma ravina seca e ensolarada, com uma trilha de terra subindo pela encosta esquerda entre altos cactos candelabro e arbustos, pequenos lotes cercados e um galpão de telhado branco no fundo, e uma crista íngreme e nua à direita sob um céu azul limpo.
A trilha para Lluscuma, numa ravina nos arredores de Putre, a cerca de 3.500 metros, em 7 de julho de 2019. A pampa e as antigas cavalariças do Exército ficam mais acima; o fotógrafo legendou a imagem apenas como “caminho para Lluscuma”. Foto: S. Rae, CC BY 2.0, via Wikimedia Commons. Fonte da imagem · CC BY 2.0 · S. Rae

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A luz que veio até a fogueira

Da ponta do muro, os homens a viram com clareza: uma grande luz suspensa na encosta do morro que fechava seu horizonte, a uns 500 metros, forte o bastante para destacar as plantações e o contorno da crista numa noite sem lua. Era violeta, “como um fogo”, disse um deles, redonda a oval, com um ponto de vermelho intenso em cada extremidade, e não fazia som nenhum. Ao se mover, inchava e encolhia, ficando mais brilhante “como um tubo fluorescente” à medida que se aproximava. Valdés mandou abafar a fogueira com cobertores. A luz recuou até o morro, pareceu pousar no chão por um instante e voltou. “Era como se o fogo chamasse a atenção deles”, disse Valdés na fita, “como uma criança curiosa.” A um correspondente da agência de notícias francesa Agence France-Presse (AFP), ele descreveu a cena mais tarde de modo mais inquietante: parecia que alguém por trás da luz tentava descobrir o que havia junto à fogueira. Os soldados sentiam que ela os puxava, e deram as mãos para que ninguém desse um passo à frente. “Nos agrupamos em posição de combate, ombro a ombro, e dissemos: ninguém se mexe”, lembrou Valdés. “Se acontecer alguma coisa conosco, que aconteça com todos.” Juraram ficar juntos. Quando a luz chegou mais perto, o cabo se plantou diante de seus homens e gritou para ela: “Aproximem-se e identifiquem-se!” Nada respondeu. Ele invocou Deus e ordenou que ela fosse embora: “Vá. Em nome de Deus, eu ordeno.” Perto dali, um rebanho de ovelhas se amontoara e ficara imóvel; pesquisadores posteriores ouviram que o Exército mandou pôr as ovelhas nas primeiras notícias no lugar de seus cavalos. O mascote do grupo, um cachorro chamado Huamachuco, como a unidade, ficou petrificado junto ao muro, e os cavalos pareciam paralisados. “Havia um silêncio de túmulo.”

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Quinze minutos

Às 4h15, segundo seu próprio relato, Valdés olhou o relógio. Então deu alguns passos em direção à luz, dois ou três metros nas palavras dele, quatro nas dos soldados, e sumiu. Um dos recrutas se lembrava de outro jeito: viu-o ir até a ponta do muro de pedra. “Achei que ele ia fazer suas necessidades”, disse o soldado na fita. “Mas quando passaram uns cinco minutos e ele não voltava, fomos procurá-lo, e ele tinha desaparecido.” Quatro deles saíram no escuro chamando seu nome. Os outros ficaram junto ao muro. Ninguém o ouviu voltar. Por volta das 4h30, ele simplesmente estava entre eles de novo, gritando “Rapazes!” no que um deles chamou de um pedido de socorro, e então desabou. Eles o carregaram até as brasas. Quando voltou a si, encarou-os com olhos desvairados, como se não os conhecesse, endireitou-se num tranco e disse, nas palavras que a imprensa chilena publicou: “Vocês não sabem quem somos nem de onde viemos, mas eu lhes digo que logo voltaremos.” Na fita, tal como traduzida mais tarde, os soldados se lembram dele rindo ao dizer isso, um deles comparando o riso ao de um demônio, e das palavras tal como passariam à lenda: “Vocês nunca saberão quem somos nem de onde viemos.” Ele teve espasmos, riu de modo incoerente, olhou com medo para a luz, ainda suspensa perto do morro, e desmaiou de novo. Ao voltar a si uma segunda vez, fitou o brilho e murmurou: “A luz… a luz…”, antes de apagar mais uma vez.

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A barba e o relógio

Enquanto o enrolavam num cobertor, os soldados repararam em seu rosto. O cabo, que segundo eles tinha se barbeado naquele dia e usava apenas bigode quando a guarda começou, agora tinha uma barba cerrada como de cinco dias; horas depois, na fita, o próprio Araneda comentaria a barba espessa. Por volta das sete, ele acordou, aparentemente de volta a si. “Não me lembro de nada desde o momento em que me afastei de vocês”, disse, e perguntou pela luz. Ela tinha ficado ali a noite toda, contaram, e se apagara devagar à medida que o dia nascia. “Muito bem, preparem-se para partir”, ordenou. “Já está muito tarde… quatro e meia? Que estranho, meu relógio parou.” O relógio, digital segundo as primeiras notícias, marcava exatamente 4h30. Seu calendário marcava o dia 30, cinco dias à frente, os mesmos cinco dias, como a história logo faria notar, que sua barba parecia ter vivido. Nas versões que se espalharam no mês seguinte, quinze minutos na pampa tinham virado cinco dias em outro lugar.

Fotografia colorida de dois vulcões nevados e uma cordilheira de montanhas avermelhadas tingidas de rosa pelo sol nascente, refletidos numa lagoa perfeitamente parada em primeiro plano, com uma lua cheia se pondo baixa à direita e seu reflexo na água abaixo.
O amanhecer sobre o Parinacota e o Pomerape, refletidos numa lagoa do lado boliviano da fronteira, com a lua se pondo à direita, em 1.º de maio de 2018. Em Lluscuma, disseram os soldados, a luz ficou junto ao morro a noite toda e só se apagou com o nascer do sol. Foto: Gabriela Villanueva, CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons. Fonte da imagem · CC BY-SA 4.0 · Gabriela Villanueva

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Manhã em Putre

Valdés desceu sozinho até Putre, um trajeto de cerca de meia hora. Seu amigo Antonio Flores, um cabo que tinha feito a formação com ele na escola de cavalaria de Quillota, se lembrava disso mais cedo do que os soldados: Valdés, disse ele, bateu à sua porta em Putre por volta das seis. “Não sei, ficaram todos loucos, temos que controlá-los”, disse a Flores, e no caminho de subida explicou o que achava que tinha acontecido: “Parece que adormeci, e quando os recrutas me acordaram era o caos.” Flores encontrou alguns dos jovens soldados gritando que iam embora, uns poucos já descendo a ravina; ele os fez fazer exercícios para acalmá-los e cheirou o hálito deles em busca de aguardente de cana. A notícia também tinha chegado a Pedro Araneda, professor de trabalhos manuais em Putre, correspondente local do La Estrella de Arica e homem já conhecido por seu interesse por discos voadores. Por volta das nove, ele se sentou com os recrutas e lhes mostrou um livro de fotografias de OVNIs para que apontassem o que tinham visto. A imprensa disse que ele os gravou nesse momento; Flores se lembrava de o gravador aparecer só por volta das duas da tarde, de volta às cavalariças. A imprensa falou depois em três horas de fita. “Aquela luz ficou mexendo com a gente a noite toda”, começou um soldado. Valdés, que passou a maior parte do dia dormindo na casa de Araneda, disse ao gravador que não se lembrava de nada, só de uma atração. “Só posso lhe dizer que algo me atraiu. Era como uma comunicação interior com a luz. Não sei se digo que senti algo verdadeiramente maravilhoso ou algo aterrorizante.” Depois, foi “como quando estou com sono e desapareço num poço profundo, como um abismo. Dali em diante meu cérebro fica vazio.” Talvez, disse ele, tivesse sido uma espécie de aviso: “Nenhuma palavra me foi dirigida… se esses seres realmente existem.”

Fotografia colorida de uma pequena cidade de telhados baixos brancos e cinzentos espalhada por um vale de campos em terraços marrons e verdes, vista de uma encosta, com montanhas nuas e dobradas ao fundo e um vulcão nevado sob um céu azul-escuro no alto à direita.
Putre, a cerca de 3.500 metros, sob as neves do Taapacá, em 23 de junho de 2012. A guarnição dos recrutas e a casa de Pedro Araneda ficavam na cidade; as cavalariças de Lluscuma ficavam a poucos quilômetros. Foto: Dan Lundberg, CC BY-SA 2.0, via Wikimedia Commons. Fonte da imagem · CC BY-SA 2.0 · Dan Lundberg

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Três semanas de silêncio, depois uma enxurrada

Durante três semanas, nada saiu. Então, na segunda-feira, 16 de maio, o La Estrella de Arica publicou “Patrulha fez contato com OVNI em Putre”, de Luis Maturana, Luis Daroch e Araneda, e em um dia a história estava nas agências de notícias, de Santiago a Buenos Aires. Em 17 de maio, o governador da província de Arica, o coronel Óscar Figueroa Márquez, baixou uma circular, com base no decreto de emergência sobre a imprensa, ordenando que tudo o que dissesse respeito a OVNIs lhe fosse submetido antes da publicação; o La Estrella retirou de suas páginas os depoimentos gravados dos soldados. A ordem não se sustentou. O El Mercurio mandou Enrique Jorquera a Arica, e em 18 de maio o próprio Valdés se reuniu ali com a imprensa. “Sei que me exponho a ser alvo de risadas”, disse à AFP, “mas eu era dos que pensavam que, com os OVNIs, era preciso ver para crer. Agora os soldados que estavam comigo e eu vimos, e acreditamos que por trás daquela luz que nos visitou naquela madrugada há alguém inteligente que vem de outro planeta.” Disse que queria recuperar os quinze minutos, até sob hipnose. Na mesma tarde, o comandante em chefe do Exército emitiu o Boletim de Imprensa n.º 59. O Exército, dizia, “não se pronuncia sobre os fatos em si, tal como relatados pelos membros da patrulha”, mas as versões da imprensa “são em geral coerentes com os relatos dos membros da patrulha”. No dia seguinte, o El Mercurio publicou uma transcrição da fita de Araneda, e o governador Figueroa logo suspendeu sua ordem. Em junho, o National Enquirer já tinha a história; um coronel do Exército descrito como assessor do general Pinochet disse ao jornal que os homens estavam retidos no quartel para exames médicos e psiquiátricos, e que “é uma história muito estranha”. O boletim da Aerial Phenomena Research Organization (APRO), no Arizona, noticiou que Pinochet proibira novas entrevistas. Em julho, um jornalista de Temuco, Juan Jorge Faundes, já tinha nas livrarias um livro escrito em cerca de uma semana e intitulado com as palavras de que os soldados se lembravam: Ustedes nunca sabrán, “Vocês nunca saberão”.

Fontes: El ocaso ValdésCrónica, Buenos Aires, 17 de maio de 1977En apasionante relato el cabo del Ejército de Chile confirmó a la prensa su encuentro con un plato voladorChile: OVNI, mala palabraOVNI de PutreSecuestrados por extraterrestresSoldado levado por OVNI perde cinco dias de sua vida – em 15 minutos!The A.P.R.O. Bulletin vol. 26 n.º 1El cabo Valdés me decepcionó

Barbas, médicos e um foguete

Valdés tentou resolver a questão da barba ele mesmo. Segundo as notícias chilenas resumidas na Espanha naquele setembro, ele passou cinco dias sem se barbear para comparar, e o resultado foi mais ralo do que o que seus homens tinham visto em seu rosto naquela noite. “O estranho”, disse ele, “é que, com o frio, em Putre a barba cresce muito pouco.” Antonio Las Heras, um jornalista argentino que o Canal 13 do Chile trouxe de avião para examinar o caso, argumentou que Valdés tinha se teletransportado em pânico e que a barba crescera de medo, e apontou um problema na leitura popular: se aquilo era dilatação do tempo, estava ao contrário, já que quem envelhecera fora o viajante, não os que ficaram. Em poucas semanas, Valdés foi mandado ao Hospital Militar de Santiago para exames, onde ficou cerca de um mês, pelo relato de Flores. Os médicos do Exército que o examinaram recomendaram transferi-lo para outra unidade e mantê-lo longe da imprensa. Anos depois, o psiquiatra do Exército Raúl Molina disse ao La Tercera que tinha sido “uma típica psicose lúcida”; em 2007, disse que não se lembrava de Valdés estar fingindo. Valdés continuou de farda. Em fevereiro de 1980, como instrutor em Concepción, estava entre os soldados que viram outra luz estranha no céu; o analista espacial americano James Oberg identificou aquela como um estágio de foguete soviético.

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As muitas vidas do cabo Valdés

Ao longo do meio século seguinte, Valdés nunca contou a história duas vezes do mesmo jeito. Em 1983, entrevistado com autorização escrita do Exército, disse que estava cansado de fugir: “Quero ser simplesmente Armando Valdés.” Em 1993, já sargento, anunciou que os extraterrestres voltariam e que seria preciso estar em paz com Deus; disse que os tinha chamado e que eles tinham curado sua filha doente, e contou ao jornalista argentino Alejandro Agostinelli que os seres lhe tinham parecido um tanto demoníacos. Em junho de 1999, dias depois de passar para a reserva, foi ao De Pe a Pa, no canal estatal TVN, por um cachê noticiado como de mais de oito milhões de pesos, e falou de uma inteligência não humana, da sensação de ter atravessado um portal, de um pavor da letra H e de visitas de homens de preto a seu escritório no Regimento Tucapel. Sob hipnose, naquele ano, segundo Abusleme, descreveu ter caminhado até a nave, entrado nela e visto três pessoas de capacete branco.

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“Nunca fui abduzido!”

No vigésimo quinto aniversário, em abril de 2002, Valdés disse ao Las Últimas Noticias: “Querem saber a verdade? Nunca fui abduzido! Mas me aconteceu outro fenômeno.” Naquele novembro, ele esteve na pampa com o pesquisador Patricio Abusleme, onde construções de tijolo já tinham substituído as antigas cavalariças, e disse que tinha passado os quinze minutos fazendo suas necessidades e ouvindo os recrutas por trás do muro, e que não se barbeava havia cinco dias. Em 2007, já pastor evangélico e dono de um restaurante de ceviche em Temuco, disse a Agostinelli e ao cético chileno Diego Zúñiga: “Eu estava sempre observando-os, sempre ouvindo-os. Eles não me viam… Estavam mais alucinados do que eu.” Sobre sua atuação naquela noite, disse que ainda não conseguia explicá-la: “Foi como começar a contar uma piada durante um terremoto de magnitude 7,5.” Mas continuava sem abrir mão da luz: “Nunca vou negar que senti que aquela coisa era inteligente”, e uma entidade, sugeriu ele, tinha conduzido as mentiras. Em fevereiro de 2013, disse a um congresso de OVNIs em Maipú que não houvera contato de espécie alguma, que quisera ir encontrar o lugar onde a luz caíra “para pegar um pedacinho de ouro e ficar milionário”, e que os “ufólogos de fachada” deviam parar de ganhar dinheiro com seu caso. Em 2024, finalmente publicou um livro, A la sombra de la verdad, “À sombra da verdade”. Ao apresentá-lo no Museu OVNI de La Serena naquele novembro, disse que ele lhe custara vinte e cinco anos e tinha três personagens: Armando Valdés, o homem; o cabo Valdés, que conta o que aconteceu em 1977; e uma figura que vive num futuro que ainda pode acontecer.

Fontes: Entrevista a Patricio Abusleme HoffmanLa “abducción” del cabo Valdés: una revisión de la historiaEl caso del cabo Valdés, a 40 años del episodio más célebre de la ufología chilenaCabo Valdés cuenta una nueva versión de “abducción” en 1977Cabo Valdés se confiesa: “Nunca me abdujeron”Cabo Valdés nunca fue abducido en el norte de ChileCabo Valdés lanza su libro en el Museo OVNIA la sombra de la verdad

As sentinelas se mantêm firmes

Seus homens nunca o seguiram. Abusleme, que passou anos rastreando os recrutas para seu livro La noche de los centinelas, “A noite das sentinelas”, encontrou três dispostos a falar: Julio Rojas, Humberto Rojas e Raúl Salinas. “Todos os soldados dizem que naquele dia, quando a guarda começou, Valdés estava barbeado e usava apenas bigode”, disse ele. Humberto Rojas, que depois fez uma carreira de uns trinta anos na polícia chilena, apareceu na televisão em 1999 e confirmou aos pesquisadores os fatos básicos, barba e relógio incluídos. Salinas foi mais longe que todos: disse ter visto o cabo cair do céu, “e como ele é baixinho, pensei que era um deles”. Desde então, contou, tinha viajado em sonhos com Amalia, a rainha de outro mundo, e se queixou de que Valdés “lucrou com uma história que conhece por nosso intermédio”. Iván Robles nunca quis dar entrevista; em 2016, meses antes de morrer, perguntou a Agostinelli quanto ele pagaria “pela versão que nunca foi ouvida”. Nem Antonio Flores, que tinha ouvido Valdés dizer que adormecera, chamava aquilo de farsa: na escola de cavalaria, disse, tinham Valdés na conta de um exibido que gostava de atenção, e ele podia perfeitamente estar fingindo, “mas não me pareceu que fosse assim”. Abusleme foi direto sobre a retratação. “Não foi uma brincadeira”, disse no quadragésimo aniversário; algo anômalo tinha acontecido, talvez uma operação militar de uma potência estrangeira ou chilena, e a negação era uma questão religiosa para um homem que era pastor havia vinte anos. Ele tinha chamado Valdés de o Travis Walton chileno.

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Lluscuma no imaginário

O caso ficou maior que todos os que o contaram. Em poucas semanas virou piada: o suplemento satírico do La Segunda, que tinha o hábito de zombar das notícias sobre pessoas desaparecidas sob a ditadura, publicou um comunicado do “Departamento de Relações Públicas dos Discos Voadores” pedindo para não ser confundido com aqueles “supostos” desaparecimentos, lamentando a barba do cabo e seu relógio adiantado e prometendo uma barbearia e uma oficina de conserto de relógios a bordo dos discos. O El Mercurio notou que sua frase famosa era dita e repetida numa peça de teatro que estrearia naquele julho. Nas versões chilenas, os fuzis dos soldados foram encontrados retorcidos, e um fragmento de metal brilhante recolhido na pampa foi parar no porta-malas do carro do repórter Luis Daroch. O escritor espanhol J. J. Benítez afirmou que uma família de agricultores aimarás que vivia a uns 300 metros dali tinha visto a mesma luz, e disse que o general Pinochet lhe entregara uma pasta sobre o caso; pelo relato de Agostinelli, era o comprometedor relatório do Hospital Militar, passado adiante num jantar para que Benítez não perdesse seu tempo. Em 2013, o romancista Jorge Baradit publicou Lluscuma, um thriller de ficção científica que entrelaça os minutos perdidos do cabo com a história enterrada da ditadura; como disse Baradit: “Estávamos ocupados olhando para o céu enquanto enterravam nossos irmãos na terra.” Faundes voltou em 2023 com um segundo livro, quarenta e seis anos depois, ponderando buracos de minhoca e viagens no tempo. O Museu OVNI de La Serena guarda uma maquete da pampa, e em Santiago uma sala de fuga convida os jogadores a resolver “A abdução do cabo Valdés”, partindo da premissa de que ele foi mesmo levado e depois obrigado a dizer que tudo era mentira.

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Fontes e entrevistas

As fontes permanecem no idioma original; seus títulos e descrições estão traduzidos.

En apasionante relato el cabo del Ejército de Chile confirmó a la prensa su encuentro con un plato voladorAgence France-Presse, de Arica, 18 de maio · Crónica, Buenos Aires, 18 de maio de 1977, p. 16 · Internet ArchiveCrónica, Buenos Aires, 17 de maio de 1977ANSA e United Press International, de Santiago, citando o La Segunda e o El Mercurio de 16–17 de maio · Internet ArchiveChile: OVNI, mala palabraANSA, de Santiago · Crónica, Buenos Aires, 19 de maio de 1977 · sobre a ordem de censura do governador de Arica · Internet ArchiveL’histoire de la patrouille chilienne et de son caporalLumières dans la Nuit n.º 169 · 1977 · traduções francesas da reportagem de Enrique Jorquera no El Mercurio de 17 de maio de 1977 e da transcrição da fita de Araneda que o El Mercurio publicou em 19 de maio · Internet ArchiveSecuestrados por extraterrestresAntonio Ribera · Planeta, Barcelona, 1984 · capítulo sobre Putre, com o texto em espanhol da fita de Araneda tal como publicado no El Mercurio em 19 de maio de 1977 · Internet ArchiveOVNI de PutreRamón Simó Costa · Stendek vol. 8 n.º 29 · Centro de Estudios Interplanetarios, Barcelona, setembro de 1977 · a partir da imprensa chilena, com o boletim do Exército · Internet ArchiveThe A.P.R.O. Bulletin vol. 26 n.º 1Aerial Phenomena Research Organization, Tucson · julho de 1977, pp. 1 e 3 · Internet ArchiveSoldado levado por OVNI perde cinco dias de sua vida – em 15 minutos!Michael J. Hoy · National Enquirer, 28 de junho de 1977, p. 33 · reproduzido no Cosmology Newslink n.º 19 · Internet ArchiveO encontro de AricaGordon Creighton · Flying Saucer Review vol. 23 n.º 5 · fevereiro de 1978 · a partir do Clarín, do La Crónica, do La Razón e do Sunday Express · Internet Archive¿Dónde estuvo el cabo Valdés?Antonio Las Heras · Mundo Desconocido n.º 15, Barcelona · setembro de 1977, pp. 68–74 · Internet ArchiveEl ocaso ValdésDiego Zúñiga C. · Cuadernos de Ufología, 3.ª série, n.º 29 · 2003 · com o depoimento de 1999 do cabo Antonio Flores e a circular do governador · Internet ArchiveA queda do cabo ValdésDiego Zúñiga C., traduzido por Richard W. Heiden · Magonia Supplement n.º 50 · 19 de maio de 2004 · Internet ArchiveEl cabo Valdés me decepcionóDiego Zúñiga, entrevista com Juan Jorge Faundes · La Nave de los Locos n.º 25 · novembro de 2003 · Internet ArchiveO caso de AricaGordon Creighton, com o relato de Hartwig Hausdorf sobre sua visita de 1996 a Putre e a Pedro Araneda · Flying Saucer Review vol. 44 n.º 2 · verão de 1999 · Internet ArchiveUma investigação sobre o caso do cabo ValdésJean Librero · Outer Limits Magazine n.º 48 · resenha de La noche de los centinelas, de Patricio Abusleme, com trechos da fita de Araneda · Internet ArchiveA 43 años de la patrulla del cabo Valdés en PutreCristián Riffo · de El libro no oficial del caso Valdés · reproduzido na NOUFA n.º 74 · 2020 · Internet ArchiveConfieso que creo en los ovnisHermógenes Pérez de Arce, diretor do La Segunda em 1977 · Editorial El Roble, Santiago · capítulo “El caso del cabo Valdés” · Internet ArchiveLa “abducción” del cabo Valdés: una revisión de la historiaAlejandro Agostinelli, com Diego Zúñiga · Factor el Blog · 25 de abril de 2017 · a partir da entrevista que fizeram com Valdés em Temuco em 2007Valdés, el cabo que fue abducido, o no, por extraterrestresAlejandro Agostinelli · Factor el Blog · 24 de dezembro de 2010El cabo Valdés nunca fue abducidoAsociación Escéptica de Chile · maio de 2010El montaje del caso ValdésAsociación Escéptica de Chile · março de 2013Entrevista a Patricio Abusleme HoffmanOvnis en la sexta región · fevereiro de 2006Cabo Valdés cuenta una nueva versión de “abducción” en 1977La Cuarta · 20 de fevereiro de 2011Cabo Valdés se confiesa: “Nunca me abdujeron”JL Barrientos · La Cuarta · 18 de fevereiro de 2013Cabo Valdés nunca fue abducido en el norte de Chile24 Horas, Televisión Nacional de Chile · 18 de fevereiro de 2013Abducción del cabo Valdés, el misterio sigue vivoDiario El Día, La Serena · 24 de fevereiro de 2013El caso del cabo Valdés, a 40 años del episodio más célebre de la ufología chilenaT13 · 25 de abril de 2017La noche de los centinelas de Patricio Abusleme: el caso Valdés como nuncaDiego Zúñiga · El Ojo Crítico · 30 de julho de 2017O estranho caso de distorção do tempo do cabo Armando ValdésJ. Antonio Huneeus · Open Minds · 27 de julho de 2020Chile: a gravação original da abdução do cabo ValdésInexplicata, tradução de Scott Corrales a partir da NOUFA · 4 de agosto de 2012Ovni de Putre 46 años después: nuevo libroLa Voz del Norte · fevereiro de 2023 · sobre o segundo livro de Juan Jorge FaundesCabo Valdés lanza su libro en el Museo OVNIMuseo OVNI, La Serena · novembro de 2024A la sombra de la verdadArmando Valdés · Editorial Digital Daniel Silva · registro no catálogo ISBN Chile, 2024Política y ciencia ficción: Baradit publica novela sobre el caso del cabo ValdésLa Tercera · novembro de 2013 · sobre o romance Lluscuma, de Jorge BaraditLa abducción del cabo ValdésFUGA escape rooms, Santiago · descrição da salaCaso Cabo ValdésWikipédia em espanhol

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