Duas estrelas descendo
O primeiro a vê-las foi Pedro Rosales, um dos dois recrutas de sentinela à porta das cavalariças. Faltava pouco para as quatro da manhã da segunda-feira, 25 de abril de 1977, no altiplano da Pampa Lluscuma, nos Andes do norte do Chile. O resto do grupo estava sentado em volta de uma fogueira, ao abrigo de um muro de pedra seca, cantando e trocando piadas com as sentinelas para não dormir no frio. Não havia lua. Desde umas dez e meia, as sentinelas vinham observando “estrelas” cruzando o céu. “Primeiro vi uma luz descendo, depois outra”, contou Rosales poucas horas depois, diante de um gravador. “Eram duas. Uma desceu deste lado do morro e a outra do outro lado.” Ele correu até a fogueira. “Cabo, venha ver uma luz que está no morro.” O cabo era Armando Valdés Garrido, de vinte e dois ou vinte e três anos, franzino, devoto e com cerca de cinco pés e cinco polegadas de altura. O que ele fez na meia hora seguinte o tornaria o soldado mais famoso da história da ufologia chilena, e o que disse sobre isso nos quarenta e sete anos seguintes o tornaria o mais exasperante.

Fontes: Secuestrados por extraterrestresOVNI de PutreA queda do cabo Valdés
As cavalariças de Lluscuma
Os jornais chamariam os homens de patrulha, voltando de uma ronda de rotina perto da fronteira boliviana. Na verdade, como pesquisadores posteriores estabeleceram, eram uma guarda de cavalariça. A Pampa Lluscuma, uma pastagem a poucos quilômetros do povoado de Putre, a cerca de 3.500 metros, abrigava os cavalos do destacamento de montanha que o Exército mantinha ali, e o serviço consistia em deixar sacos de aveia de molho, alimentar os animais e limpar as baias. Os sete recrutas estavam em Putre havia cerca de um ano: Julio Rojas, Germán Riquelme, Iván Robles, Humberto Rojas, Raúl Salinas, Juan Reyes e Rosales. Valdés, que estava lá havia dois anos, disse a entrevistadores em 2007 que nem sequer deveria estar no comando deles. Tinha sido mandado para as cavalariças naquela noite como castigo, contou, por chegar atrasado a reuniões: “Não me cabia estar ali; não eram meus homens.” A missão importava mais do que parecia. Em 1977, o governo militar do Chile se preparava para uma possível guerra em três frentes, contra o Peru, a Bolívia e a Argentina, e reforçava discretamente o norte. Os cavalos de Lluscuma faziam parte disso, e não eram algo que o Exército quisesse discutir.

Fontes: A queda do cabo ValdésLa “abducción” del cabo Valdés: una revisión de la historiaEl ocaso ValdésOVNI de PutreUma investigação sobre o caso do cabo ValdésChile: a gravação original da abdução do cabo Valdés
A luz que veio até a fogueira
Da ponta do muro, os homens a viram com clareza: uma grande luz suspensa na encosta do morro que fechava seu horizonte, a uns 500 metros, forte o bastante para destacar as plantações e o contorno da crista numa noite sem lua. Era violeta, “como um fogo”, disse um deles, redonda a oval, com um ponto de vermelho intenso em cada extremidade, e não fazia som nenhum. Ao se mover, inchava e encolhia, ficando mais brilhante “como um tubo fluorescente” à medida que se aproximava. Valdés mandou abafar a fogueira com cobertores. A luz recuou até o morro, pareceu pousar no chão por um instante e voltou. “Era como se o fogo chamasse a atenção deles”, disse Valdés na fita, “como uma criança curiosa.” A um correspondente da agência de notícias francesa Agence France-Presse (AFP), ele descreveu a cena mais tarde de modo mais inquietante: parecia que alguém por trás da luz tentava descobrir o que havia junto à fogueira. Os soldados sentiam que ela os puxava, e deram as mãos para que ninguém desse um passo à frente. “Nos agrupamos em posição de combate, ombro a ombro, e dissemos: ninguém se mexe”, lembrou Valdés. “Se acontecer alguma coisa conosco, que aconteça com todos.” Juraram ficar juntos. Quando a luz chegou mais perto, o cabo se plantou diante de seus homens e gritou para ela: “Aproximem-se e identifiquem-se!” Nada respondeu. Ele invocou Deus e ordenou que ela fosse embora: “Vá. Em nome de Deus, eu ordeno.” Perto dali, um rebanho de ovelhas se amontoara e ficara imóvel; pesquisadores posteriores ouviram que o Exército mandou pôr as ovelhas nas primeiras notícias no lugar de seus cavalos. O mascote do grupo, um cachorro chamado Huamachuco, como a unidade, ficou petrificado junto ao muro, e os cavalos pareciam paralisados. “Havia um silêncio de túmulo.”
Fontes: OVNI de PutreSecuestrados por extraterrestresEn apasionante relato el cabo del Ejército de Chile confirmó a la prensa su encuentro con un plato voladorL’histoire de la patrouille chilienne et de son caporalLa “abducción” del cabo Valdés: una revisión de la historiaA 43 años de la patrulla del cabo Valdés en Putre
Quinze minutos
Às 4h15, segundo seu próprio relato, Valdés olhou o relógio. Então deu alguns passos em direção à luz, dois ou três metros nas palavras dele, quatro nas dos soldados, e sumiu. Um dos recrutas se lembrava de outro jeito: viu-o ir até a ponta do muro de pedra. “Achei que ele ia fazer suas necessidades”, disse o soldado na fita. “Mas quando passaram uns cinco minutos e ele não voltava, fomos procurá-lo, e ele tinha desaparecido.” Quatro deles saíram no escuro chamando seu nome. Os outros ficaram junto ao muro. Ninguém o ouviu voltar. Por volta das 4h30, ele simplesmente estava entre eles de novo, gritando “Rapazes!” no que um deles chamou de um pedido de socorro, e então desabou. Eles o carregaram até as brasas. Quando voltou a si, encarou-os com olhos desvairados, como se não os conhecesse, endireitou-se num tranco e disse, nas palavras que a imprensa chilena publicou: “Vocês não sabem quem somos nem de onde viemos, mas eu lhes digo que logo voltaremos.” Na fita, tal como traduzida mais tarde, os soldados se lembram dele rindo ao dizer isso, um deles comparando o riso ao de um demônio, e das palavras tal como passariam à lenda: “Vocês nunca saberão quem somos nem de onde viemos.” Ele teve espasmos, riu de modo incoerente, olhou com medo para a luz, ainda suspensa perto do morro, e desmaiou de novo. Ao voltar a si uma segunda vez, fitou o brilho e murmurou: “A luz… a luz…”, antes de apagar mais uma vez.
Fontes: OVNI de PutreSecuestrados por extraterrestresEn apasionante relato el cabo del Ejército de Chile confirmó a la prensa su encuentro con un plato voladorUma investigação sobre o caso do cabo ValdésEl ocaso Valdés
A barba e o relógio
Enquanto o enrolavam num cobertor, os soldados repararam em seu rosto. O cabo, que segundo eles tinha se barbeado naquele dia e usava apenas bigode quando a guarda começou, agora tinha uma barba cerrada como de cinco dias; horas depois, na fita, o próprio Araneda comentaria a barba espessa. Por volta das sete, ele acordou, aparentemente de volta a si. “Não me lembro de nada desde o momento em que me afastei de vocês”, disse, e perguntou pela luz. Ela tinha ficado ali a noite toda, contaram, e se apagara devagar à medida que o dia nascia. “Muito bem, preparem-se para partir”, ordenou. “Já está muito tarde… quatro e meia? Que estranho, meu relógio parou.” O relógio, digital segundo as primeiras notícias, marcava exatamente 4h30. Seu calendário marcava o dia 30, cinco dias à frente, os mesmos cinco dias, como a história logo faria notar, que sua barba parecia ter vivido. Nas versões que se espalharam no mês seguinte, quinze minutos na pampa tinham virado cinco dias em outro lugar.

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Manhã em Putre
Valdés desceu sozinho até Putre, um trajeto de cerca de meia hora. Seu amigo Antonio Flores, um cabo que tinha feito a formação com ele na escola de cavalaria de Quillota, se lembrava disso mais cedo do que os soldados: Valdés, disse ele, bateu à sua porta em Putre por volta das seis. “Não sei, ficaram todos loucos, temos que controlá-los”, disse a Flores, e no caminho de subida explicou o que achava que tinha acontecido: “Parece que adormeci, e quando os recrutas me acordaram era o caos.” Flores encontrou alguns dos jovens soldados gritando que iam embora, uns poucos já descendo a ravina; ele os fez fazer exercícios para acalmá-los e cheirou o hálito deles em busca de aguardente de cana. A notícia também tinha chegado a Pedro Araneda, professor de trabalhos manuais em Putre, correspondente local do La Estrella de Arica e homem já conhecido por seu interesse por discos voadores. Por volta das nove, ele se sentou com os recrutas e lhes mostrou um livro de fotografias de OVNIs para que apontassem o que tinham visto. A imprensa disse que ele os gravou nesse momento; Flores se lembrava de o gravador aparecer só por volta das duas da tarde, de volta às cavalariças. A imprensa falou depois em três horas de fita. “Aquela luz ficou mexendo com a gente a noite toda”, começou um soldado. Valdés, que passou a maior parte do dia dormindo na casa de Araneda, disse ao gravador que não se lembrava de nada, só de uma atração. “Só posso lhe dizer que algo me atraiu. Era como uma comunicação interior com a luz. Não sei se digo que senti algo verdadeiramente maravilhoso ou algo aterrorizante.” Depois, foi “como quando estou com sono e desapareço num poço profundo, como um abismo. Dali em diante meu cérebro fica vazio.” Talvez, disse ele, tivesse sido uma espécie de aviso: “Nenhuma palavra me foi dirigida… se esses seres realmente existem.”

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Três semanas de silêncio, depois uma enxurrada
Durante três semanas, nada saiu. Então, na segunda-feira, 16 de maio, o La Estrella de Arica publicou “Patrulha fez contato com OVNI em Putre”, de Luis Maturana, Luis Daroch e Araneda, e em um dia a história estava nas agências de notícias, de Santiago a Buenos Aires. Em 17 de maio, o governador da província de Arica, o coronel Óscar Figueroa Márquez, baixou uma circular, com base no decreto de emergência sobre a imprensa, ordenando que tudo o que dissesse respeito a OVNIs lhe fosse submetido antes da publicação; o La Estrella retirou de suas páginas os depoimentos gravados dos soldados. A ordem não se sustentou. O El Mercurio mandou Enrique Jorquera a Arica, e em 18 de maio o próprio Valdés se reuniu ali com a imprensa. “Sei que me exponho a ser alvo de risadas”, disse à AFP, “mas eu era dos que pensavam que, com os OVNIs, era preciso ver para crer. Agora os soldados que estavam comigo e eu vimos, e acreditamos que por trás daquela luz que nos visitou naquela madrugada há alguém inteligente que vem de outro planeta.” Disse que queria recuperar os quinze minutos, até sob hipnose. Na mesma tarde, o comandante em chefe do Exército emitiu o Boletim de Imprensa n.º 59. O Exército, dizia, “não se pronuncia sobre os fatos em si, tal como relatados pelos membros da patrulha”, mas as versões da imprensa “são em geral coerentes com os relatos dos membros da patrulha”. No dia seguinte, o El Mercurio publicou uma transcrição da fita de Araneda, e o governador Figueroa logo suspendeu sua ordem. Em junho, o National Enquirer já tinha a história; um coronel do Exército descrito como assessor do general Pinochet disse ao jornal que os homens estavam retidos no quartel para exames médicos e psiquiátricos, e que “é uma história muito estranha”. O boletim da Aerial Phenomena Research Organization (APRO), no Arizona, noticiou que Pinochet proibira novas entrevistas. Em julho, um jornalista de Temuco, Juan Jorge Faundes, já tinha nas livrarias um livro escrito em cerca de uma semana e intitulado com as palavras de que os soldados se lembravam: Ustedes nunca sabrán, “Vocês nunca saberão”.
Fontes: El ocaso ValdésCrónica, Buenos Aires, 17 de maio de 1977En apasionante relato el cabo del Ejército de Chile confirmó a la prensa su encuentro con un plato voladorChile: OVNI, mala palabraOVNI de PutreSecuestrados por extraterrestresSoldado levado por OVNI perde cinco dias de sua vida – em 15 minutos!The A.P.R.O. Bulletin vol. 26 n.º 1El cabo Valdés me decepcionó
Barbas, médicos e um foguete
Valdés tentou resolver a questão da barba ele mesmo. Segundo as notícias chilenas resumidas na Espanha naquele setembro, ele passou cinco dias sem se barbear para comparar, e o resultado foi mais ralo do que o que seus homens tinham visto em seu rosto naquela noite. “O estranho”, disse ele, “é que, com o frio, em Putre a barba cresce muito pouco.” Antonio Las Heras, um jornalista argentino que o Canal 13 do Chile trouxe de avião para examinar o caso, argumentou que Valdés tinha se teletransportado em pânico e que a barba crescera de medo, e apontou um problema na leitura popular: se aquilo era dilatação do tempo, estava ao contrário, já que quem envelhecera fora o viajante, não os que ficaram. Em poucas semanas, Valdés foi mandado ao Hospital Militar de Santiago para exames, onde ficou cerca de um mês, pelo relato de Flores. Os médicos do Exército que o examinaram recomendaram transferi-lo para outra unidade e mantê-lo longe da imprensa. Anos depois, o psiquiatra do Exército Raúl Molina disse ao La Tercera que tinha sido “uma típica psicose lúcida”; em 2007, disse que não se lembrava de Valdés estar fingindo. Valdés continuou de farda. Em fevereiro de 1980, como instrutor em Concepción, estava entre os soldados que viram outra luz estranha no céu; o analista espacial americano James Oberg identificou aquela como um estágio de foguete soviético.
Fontes: OVNI de PutreSecuestrados por extraterrestres¿Dónde estuvo el cabo Valdés?A queda do cabo ValdésLa “abducción” del cabo Valdés: una revisión de la historiaO estranho caso de distorção do tempo do cabo Armando Valdés
As muitas vidas do cabo Valdés
Ao longo do meio século seguinte, Valdés nunca contou a história duas vezes do mesmo jeito. Em 1983, entrevistado com autorização escrita do Exército, disse que estava cansado de fugir: “Quero ser simplesmente Armando Valdés.” Em 1993, já sargento, anunciou que os extraterrestres voltariam e que seria preciso estar em paz com Deus; disse que os tinha chamado e que eles tinham curado sua filha doente, e contou ao jornalista argentino Alejandro Agostinelli que os seres lhe tinham parecido um tanto demoníacos. Em junho de 1999, dias depois de passar para a reserva, foi ao De Pe a Pa, no canal estatal TVN, por um cachê noticiado como de mais de oito milhões de pesos, e falou de uma inteligência não humana, da sensação de ter atravessado um portal, de um pavor da letra H e de visitas de homens de preto a seu escritório no Regimento Tucapel. Sob hipnose, naquele ano, segundo Abusleme, descreveu ter caminhado até a nave, entrado nela e visto três pessoas de capacete branco.
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“Nunca fui abduzido!”
No vigésimo quinto aniversário, em abril de 2002, Valdés disse ao Las Últimas Noticias: “Querem saber a verdade? Nunca fui abduzido! Mas me aconteceu outro fenômeno.” Naquele novembro, ele esteve na pampa com o pesquisador Patricio Abusleme, onde construções de tijolo já tinham substituído as antigas cavalariças, e disse que tinha passado os quinze minutos fazendo suas necessidades e ouvindo os recrutas por trás do muro, e que não se barbeava havia cinco dias. Em 2007, já pastor evangélico e dono de um restaurante de ceviche em Temuco, disse a Agostinelli e ao cético chileno Diego Zúñiga: “Eu estava sempre observando-os, sempre ouvindo-os. Eles não me viam… Estavam mais alucinados do que eu.” Sobre sua atuação naquela noite, disse que ainda não conseguia explicá-la: “Foi como começar a contar uma piada durante um terremoto de magnitude 7,5.” Mas continuava sem abrir mão da luz: “Nunca vou negar que senti que aquela coisa era inteligente”, e uma entidade, sugeriu ele, tinha conduzido as mentiras. Em fevereiro de 2013, disse a um congresso de OVNIs em Maipú que não houvera contato de espécie alguma, que quisera ir encontrar o lugar onde a luz caíra “para pegar um pedacinho de ouro e ficar milionário”, e que os “ufólogos de fachada” deviam parar de ganhar dinheiro com seu caso. Em 2024, finalmente publicou um livro, A la sombra de la verdad, “À sombra da verdade”. Ao apresentá-lo no Museu OVNI de La Serena naquele novembro, disse que ele lhe custara vinte e cinco anos e tinha três personagens: Armando Valdés, o homem; o cabo Valdés, que conta o que aconteceu em 1977; e uma figura que vive num futuro que ainda pode acontecer.
Fontes: Entrevista a Patricio Abusleme HoffmanLa “abducción” del cabo Valdés: una revisión de la historiaEl caso del cabo Valdés, a 40 años del episodio más célebre de la ufología chilenaCabo Valdés cuenta una nueva versión de “abducción” en 1977Cabo Valdés se confiesa: “Nunca me abdujeron”Cabo Valdés nunca fue abducido en el norte de ChileCabo Valdés lanza su libro en el Museo OVNIA la sombra de la verdad
As sentinelas se mantêm firmes
Seus homens nunca o seguiram. Abusleme, que passou anos rastreando os recrutas para seu livro La noche de los centinelas, “A noite das sentinelas”, encontrou três dispostos a falar: Julio Rojas, Humberto Rojas e Raúl Salinas. “Todos os soldados dizem que naquele dia, quando a guarda começou, Valdés estava barbeado e usava apenas bigode”, disse ele. Humberto Rojas, que depois fez uma carreira de uns trinta anos na polícia chilena, apareceu na televisão em 1999 e confirmou aos pesquisadores os fatos básicos, barba e relógio incluídos. Salinas foi mais longe que todos: disse ter visto o cabo cair do céu, “e como ele é baixinho, pensei que era um deles”. Desde então, contou, tinha viajado em sonhos com Amalia, a rainha de outro mundo, e se queixou de que Valdés “lucrou com uma história que conhece por nosso intermédio”. Iván Robles nunca quis dar entrevista; em 2016, meses antes de morrer, perguntou a Agostinelli quanto ele pagaria “pela versão que nunca foi ouvida”. Nem Antonio Flores, que tinha ouvido Valdés dizer que adormecera, chamava aquilo de farsa: na escola de cavalaria, disse, tinham Valdés na conta de um exibido que gostava de atenção, e ele podia perfeitamente estar fingindo, “mas não me pareceu que fosse assim”. Abusleme foi direto sobre a retratação. “Não foi uma brincadeira”, disse no quadragésimo aniversário; algo anômalo tinha acontecido, talvez uma operação militar de uma potência estrangeira ou chilena, e a negação era uma questão religiosa para um homem que era pastor havia vinte anos. Ele tinha chamado Valdés de o Travis Walton chileno.
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Lluscuma no imaginário
O caso ficou maior que todos os que o contaram. Em poucas semanas virou piada: o suplemento satírico do La Segunda, que tinha o hábito de zombar das notícias sobre pessoas desaparecidas sob a ditadura, publicou um comunicado do “Departamento de Relações Públicas dos Discos Voadores” pedindo para não ser confundido com aqueles “supostos” desaparecimentos, lamentando a barba do cabo e seu relógio adiantado e prometendo uma barbearia e uma oficina de conserto de relógios a bordo dos discos. O El Mercurio notou que sua frase famosa era dita e repetida numa peça de teatro que estrearia naquele julho. Nas versões chilenas, os fuzis dos soldados foram encontrados retorcidos, e um fragmento de metal brilhante recolhido na pampa foi parar no porta-malas do carro do repórter Luis Daroch. O escritor espanhol J. J. Benítez afirmou que uma família de agricultores aimarás que vivia a uns 300 metros dali tinha visto a mesma luz, e disse que o general Pinochet lhe entregara uma pasta sobre o caso; pelo relato de Agostinelli, era o comprometedor relatório do Hospital Militar, passado adiante num jantar para que Benítez não perdesse seu tempo. Em 2013, o romancista Jorge Baradit publicou Lluscuma, um thriller de ficção científica que entrelaça os minutos perdidos do cabo com a história enterrada da ditadura; como disse Baradit: “Estávamos ocupados olhando para o céu enquanto enterravam nossos irmãos na terra.” Faundes voltou em 2023 com um segundo livro, quarenta e seis anos depois, ponderando buracos de minhoca e viagens no tempo. O Museu OVNI de La Serena guarda uma maquete da pampa, e em Santiago uma sala de fuga convida os jogadores a resolver “A abdução do cabo Valdés”, partindo da premissa de que ele foi mesmo levado e depois obrigado a dizer que tudo era mentira.
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O que sobreviveu
Nenhuma página de jornal chileno de 1977 sobre o caso parece estar disponível na internet. O registro da época sobrevive em despachos de agências publicados no exterior, sobretudo a entrevista da Agence France-Presse com Valdés e a notícia da agência italiana ANSA sobre a ordem de censura, no Crónica de Buenos Aires; na transcrição da fita de Pedro Araneda publicada pelo El Mercurio, conhecida por uma tradução francesa de 1977 e pela reedição em espanhol de Antonio Ribera, de 1984; e em paráfrases próximas da imprensa chilena em boletins ufológicos espanhóis, franceses e americanos daquele ano. O Boletim de Imprensa n.º 59 do Exército sobrevive na íntegra nesses mesmos boletins. O estudo de Diego Zúñiga de 2003 cita página por página a série do La Estrella de Arica de 16 a 20 de maio e reproduz a circular do governador. Araneda guardou sua fita durante décadas, tocou-a para o escritor alemão Hartwig Hausdorf em 1996 e deixou Abusleme copiá-la em 2009; trechos foram transcritos desde então. Nenhum arquivo oficial do Exército veio à tona; Zúñiga relata que o Exército sempre respondeu que não tem nenhum, e nenhum arquivo sobre o caso foi publicado pelo comitê oficial de OVNIs do Chile, fundado muito depois. O relógio foi mostrado a Araneda, a oficiais e às câmeras de televisão em 1977, mas ninguém jamais o examinou de forma independente, e Valdés deu versões diferentes sobre o destino dele.
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As contradições
Os detalhes que tornaram o caso famoso são os menos estáveis. O relógio parou às 4h30 na maioria das versões; na entrevista à AFP, tinha saltado quinze minutos e cinco dias a partir das 4h15 que Valdés disse ter visto antes de desaparecer, e ele contou ao Canal 13, na época, que o relógio parou às 4h20. Era digital nas notícias de 1977 e, pelo relato de Valdés em 2007, um relógio de ponteiros que ele entregou e nunca pediu de volta. A última barba feita muda daquela manhã para as seis da tarde e para as nove da noite, dependendo de quem conta, e o próprio Valdés, que em 1977 disse ao Canal 13 que sua barba naquele dia estava “normal, um pouco crescida, só isso”, acabou se fixando em “eu não estava barbeado”. A AFP contou seis soldados; a ANSA e os jornais chilenos, sete. A unidade é o Regimento Rancagua, de Arica, na imprensa, e o destacamento Huamachuco, de Putre, nas pesquisas posteriores. As distâncias até a luz vão de 200 metros a um quilômetro. Outros detalhes variam de versão para versão: uma névoa violeta em torno da luz, na qual Las Heras fez Valdés entrar; um “feixe de luz”; um cabo gritando que o estavam levando; fuzis preparados ou, como Flores insistiu a respeito de uma guarda de cavalariça, arma nenhuma.
Fontes: En apasionante relato el cabo del Ejército de Chile confirmó a la prensa su encuentro con un plato voladorOVNI de PutreLa “abducción” del cabo Valdés: una revisión de la historiaA queda do cabo Valdés¿Dónde estuvo el cabo Valdés?A 43 años de la patrulla del cabo Valdés en PutreO caso de AricaO estranho caso de distorção do tempo do cabo Armando ValdésCrónica, Buenos Aires, 17 de maio de 1977Cabo Valdés cuenta una nueva versión de “abducción” en 1977Chile: a gravação original da abdução do cabo Valdés
Explicações
Zúñiga testou primeiro se as duas estrelas descendentes dos soldados poderiam ter sido Vênus e Marte; com o pesquisador espanhol Manuel Borraz, descobriu que Vênus nasceu quase uma hora tarde demais e que Marte mal era visível, e abandonou a ideia. Ele aponta, em vez disso, para as circunstâncias: jovens recrutas exaustos, em grande altitude, numa noite gelada; uma luz de origem desconhecida; um cabo que os colegas de turma lembravam como um exibido; um entusiasta local de OVNIs que lhes mostrou fotografias de discos voadores poucas horas depois; uma história que só veio à tona três semanas mais tarde; e um governo militar com motivos para se alegrar com uma distração enquanto fortificava discretamente a fronteira norte. A Asociación Escéptica de Chile foi além, sugerindo que a história encobria os cavalos secretos de Lluscuma. Abusleme, que localizou mais testemunhas do que qualquer outro, rejeita tanto a farsa quanto a psicologia, e os soldados que ele encontrou nunca retiraram o que disseram sobre a luz que ficou no morro até o nascer do sol. Valdés, em sua versão mais recente, concorda com eles num ponto. “Se um fenômeno me causou pânico, medo, depressão”, disse ele em 2024, “então o que tínhamos diante de nós não era bom.”
Fontes: A queda do cabo ValdésEl ocaso ValdésLa noche de los centinelas de Patricio Abusleme: el caso Valdés como nuncaEl montaje del caso ValdésEl caso del cabo Valdés, a 40 años del episodio más célebre de la ufología chilenaEntrevista a Patricio Abusleme HoffmanCabo Valdés lanza su libro en el Museo OVNI
Nota sobre classificação e evidências
Este arquivo classifica a Pampa Lluscuma como um encontro próximo do quarto tipo porque o caso entrou na literatura como uma abdução relatada: um homem que caminhou em direção a uma luz diante de sete testemunhas, desapareceu por quinze minutos e voltou falando, com uma voz apressada e alterada, em nome de um “nós” sem nome. Os relatos das testemunhas da época, a fita e o boletim do Exército estabelecem que os soldados descreveram uma luz e o desaparecimento do cabo poucas horas depois e mantiveram o relato; não estabelecem o que era a luz nem para onde Valdés foi. A barba e o relógio dependem das declarações dos soldados, de Araneda e dos superiores de Valdés; nenhuma fotografia ou exame os registrou. Os relatos posteriores do próprio Valdés, que negam qualquer abdução, são apresentados aqui tal como ele os contou.
Fontes: OVNI de PutreSecuestrados por extraterrestresA queda do cabo ValdésLa “abducción” del cabo Valdés: una revisión de la historia
- 24 ABR 1977
O cabo Armando Valdés e sete recrutas assumem a guarda noturna nas cavalariças do Exército na Pampa Lluscuma, perto de Putre.
- 25 ABR 1977 · 3H50
A sentinela Pedro Rosales vê duas luzes descerem; uma luz violeta com dois pontos vermelhos se aproxima da fogueira do grupo.
- 25 ABR 1977 · 4H15
Valdés dá alguns passos em direção à luz e desaparece.
- 25 ABR 1977 · C. 4H30
Ele reaparece entre os soldados, fala de seres que “logo voltarão” e desaba; os soldados veem o que parece uma barba de dias.
- 25 ABR 1977 · C. 7H00
Valdés acorda sem se lembrar de nada; seu relógio parado marca 4h30, e o calendário, o dia 30.
- 25 ABR 1977 · MANHÃ
Pedro Araneda interroga os soldados e grava seus depoimentos.
- 16 MAI 1977
O La Estrella de Arica dá a notícia em primeira mão.
- 17 MAI 1977
O governador de Arica ordena que as notícias sobre OVNIs lhe sejam submetidas antes da publicação; o El Mercurio faz a cobertura a partir de Arica.
- 18 MAI 1977
Valdés fala à Agence France-Presse; o Exército emite o Boletim de Imprensa n.º 59.
- 19 MAI 1977
O El Mercurio publica a transcrição da fita de Araneda.
- 28 JUN 1977
O National Enquirer noticia que os homens estão retidos no quartel para exames médicos.
- JUL 1977
Juan Jorge Faundes publica Ustedes nunca sabrán.
- 2 OUT 1983
O La Tercera entrevista Valdés: “Quero ser simplesmente Armando Valdés.”
- 16 JUN 1999
Recém-passado para a reserva, Valdés fala na televisão de um portal e de homens de preto.
- ABR 2002
No 25.º aniversário, Valdés diz que nunca foi abduzido.
- 25 NOV 2007
Valdés conta a Alejandro Agostinelli e Diego Zúñiga que observou os soldados por trás do muro.
- 2010
Patricio Abusleme publica La noche de los centinelas.
- 15–16 FEV 2013
Num congresso de OVNIs em Maipú, Valdés diz que não houve contato de espécie alguma.
- NOV 2013
Jorge Baradit publica o romance Lluscuma.
- SET–NOV 2024
Valdés publica A la sombra de la verdad e o apresenta no Museu OVNI de La Serena.
Fontes e entrevistas
As fontes permanecem no idioma original; seus títulos e descrições estão traduzidos.
En apasionante relato el cabo del Ejército de Chile confirmó a la prensa su encuentro con un plato voladorAgence France-Presse, de Arica, 18 de maio · Crónica, Buenos Aires, 18 de maio de 1977, p. 16 · Internet ArchiveCrónica, Buenos Aires, 17 de maio de 1977ANSA e United Press International, de Santiago, citando o La Segunda e o El Mercurio de 16–17 de maio · Internet ArchiveChile: OVNI, mala palabraANSA, de Santiago · Crónica, Buenos Aires, 19 de maio de 1977 · sobre a ordem de censura do governador de Arica · Internet ArchiveL’histoire de la patrouille chilienne et de son caporalLumières dans la Nuit n.º 169 · 1977 · traduções francesas da reportagem de Enrique Jorquera no El Mercurio de 17 de maio de 1977 e da transcrição da fita de Araneda que o El Mercurio publicou em 19 de maio · Internet ArchiveSecuestrados por extraterrestresAntonio Ribera · Planeta, Barcelona, 1984 · capítulo sobre Putre, com o texto em espanhol da fita de Araneda tal como publicado no El Mercurio em 19 de maio de 1977 · Internet ArchiveOVNI de PutreRamón Simó Costa · Stendek vol. 8 n.º 29 · Centro de Estudios Interplanetarios, Barcelona, setembro de 1977 · a partir da imprensa chilena, com o boletim do Exército · Internet ArchiveThe A.P.R.O. Bulletin vol. 26 n.º 1Aerial Phenomena Research Organization, Tucson · julho de 1977, pp. 1 e 3 · Internet ArchiveSoldado levado por OVNI perde cinco dias de sua vida – em 15 minutos!Michael J. Hoy · National Enquirer, 28 de junho de 1977, p. 33 · reproduzido no Cosmology Newslink n.º 19 · Internet ArchiveO encontro de AricaGordon Creighton · Flying Saucer Review vol. 23 n.º 5 · fevereiro de 1978 · a partir do Clarín, do La Crónica, do La Razón e do Sunday Express · Internet Archive¿Dónde estuvo el cabo Valdés?Antonio Las Heras · Mundo Desconocido n.º 15, Barcelona · setembro de 1977, pp. 68–74 · Internet ArchiveEl ocaso ValdésDiego Zúñiga C. · Cuadernos de Ufología, 3.ª série, n.º 29 · 2003 · com o depoimento de 1999 do cabo Antonio Flores e a circular do governador · Internet ArchiveA queda do cabo ValdésDiego Zúñiga C., traduzido por Richard W. Heiden · Magonia Supplement n.º 50 · 19 de maio de 2004 · Internet ArchiveEl cabo Valdés me decepcionóDiego Zúñiga, entrevista com Juan Jorge Faundes · La Nave de los Locos n.º 25 · novembro de 2003 · Internet ArchiveO caso de AricaGordon Creighton, com o relato de Hartwig Hausdorf sobre sua visita de 1996 a Putre e a Pedro Araneda · Flying Saucer Review vol. 44 n.º 2 · verão de 1999 · Internet ArchiveUma investigação sobre o caso do cabo ValdésJean Librero · Outer Limits Magazine n.º 48 · resenha de La noche de los centinelas, de Patricio Abusleme, com trechos da fita de Araneda · Internet ArchiveA 43 años de la patrulla del cabo Valdés en PutreCristián Riffo · de El libro no oficial del caso Valdés · reproduzido na NOUFA n.º 74 · 2020 · Internet ArchiveConfieso que creo en los ovnisHermógenes Pérez de Arce, diretor do La Segunda em 1977 · Editorial El Roble, Santiago · capítulo “El caso del cabo Valdés” · Internet ArchiveLa “abducción” del cabo Valdés: una revisión de la historiaAlejandro Agostinelli, com Diego Zúñiga · Factor el Blog · 25 de abril de 2017 · a partir da entrevista que fizeram com Valdés em Temuco em 2007Valdés, el cabo que fue abducido, o no, por extraterrestresAlejandro Agostinelli · Factor el Blog · 24 de dezembro de 2010El cabo Valdés nunca fue abducidoAsociación Escéptica de Chile · maio de 2010El montaje del caso ValdésAsociación Escéptica de Chile · março de 2013Entrevista a Patricio Abusleme HoffmanOvnis en la sexta región · fevereiro de 2006Cabo Valdés cuenta una nueva versión de “abducción” en 1977La Cuarta · 20 de fevereiro de 2011Cabo Valdés se confiesa: “Nunca me abdujeron”JL Barrientos · La Cuarta · 18 de fevereiro de 2013Cabo Valdés nunca fue abducido en el norte de Chile24 Horas, Televisión Nacional de Chile · 18 de fevereiro de 2013Abducción del cabo Valdés, el misterio sigue vivoDiario El Día, La Serena · 24 de fevereiro de 2013El caso del cabo Valdés, a 40 años del episodio más célebre de la ufología chilenaT13 · 25 de abril de 2017La noche de los centinelas de Patricio Abusleme: el caso Valdés como nuncaDiego Zúñiga · El Ojo Crítico · 30 de julho de 2017O estranho caso de distorção do tempo do cabo Armando ValdésJ. 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