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DOSSIÊ / 066 — 2004

Onze luzes atrás da asa esquerda

Em março de 2004, um avião da Força Aérea Mexicana sobre Campeche girou sua câmera infravermelha para trás da asa esquerda e contou onze pontos de calor em fila além das nuvens. “No estamos solos”, disse alguém na fita. Um comandante de linha aérea logo mostrou que a câmera estivera apontada para as tochas de gás de um campo de petróleo a cem milhas de distância, do outro lado do Golfo. Um alvo de radar que a tripulação perseguira antes continua sem explicação.

Fotografia colorida de uma longa fileira de plataformas de petróleo interligadas em alto-mar, num mar azul-escuro sob céu limpo, com quatro altas lanças de tocha queimando em laranja vivo, uma pluma de fumaça cinza subindo da mais alta e, em primeiro plano, um pequeno barco de apoio deixando uma esteira branca.
2004
O complexo de plataformas Akal-C do campo de Cantarell, na Baía de Campeche, fotografado em outubro de 2009 com as lanças de tocha queimando gás. Os analistas identificaram as luzes da fita da Força Aérea com essas tochas e as de suas vizinhas, a mais de cem milhas do avião. Foto: BoH, CC BY-SA 3.0, via Wikimedia Commons; recortada em 2:1.

Um avião feito para achar pistas clandestinas

O Escuadrón Aéreo 501, o 501º Esquadrão Aéreo da Fuerza Aérea Mexicana, voava bimotores turboélice Fairchild Merlin C-26A, aviões de vigilância de fabricação americana destinados a caçar os voos do narcotráfico que cruzavam o sul do país. Sob a fuselagem ia pendurada uma Star SAFIRE II fabricada pela FLIR Systems, a empresa cujo nome, sigla em inglês de infravermelho de visada frontal, virou a palavra genérica para esse tipo de câmera: uma torreta estabilizada por giroscópio que enxerga calor em vez de luz, de modo que um motor quente ou um telhado aquecido pelo sol brilha em branco contra o céu frio, e um alvo que nenhum olho encontraria na bruma aparece como um ponto luminoso. Tinha quatro campos de visão, de uma grande-angular de 25 graus até um zoom duplicado eletronicamente de 0,4 grau. Ao lado dela trabalhava um radar de busca de superfície Telephonics AN/APS-143 Ocean Eye, cujos retornos a tripulação podia acoplar à câmera, para que a torreta girasse na direção do que o radar encontrasse. A câmera gravava num cassete Mini-DV com uma faixa de dados impressa na imagem: data, hora local, latitude e longitude ao centésimo de minuto, e três números que decidiriam o caso. O azimute da torreta, quantos graus ela apontava à esquerda ou à direita do nariz do avião; sua elevação, quantos graus acima ou abaixo da horizontal; e o campo de visão, a largura da fatia de céu que a imagem abrangia. O radar, nesse voo, não gravou nada; o único vestígio do que seu operador viu é a voz dele na trilha de áudio da câmera. Na sexta-feira, 5 de março de 2004, um desses Merlins fazia uma patrulha de Copalar, em Chiapas, até Ciudad del Carmen, na costa de Campeche, a região de lagunas onde os Cessnas dos contrabandistas pousam em pistas de terra, e às 12h55 pela fita a tripulação já procurava uma laguna e falava em voar um padrão “mais ou menos como um arco”. O secretário da Defesa Nacional contaria a um entrevistador de rádio, em maio, que o mesmo avião ajudara a capturar uma aeronave leve com mais de mil quilos de cocaína dois dias antes de ele falar. A imprensa contou oito homens a bordo; a Secretaría de la Defensa Nacional, a Sedena, o ministério que comanda tanto o exército quanto a força aérea, falaria em três oficiais, sem nomear nenhum. Três foram depois postos diante de uma câmera: o major Magdaleno Castañón Muñoz no comando, como o chamam as agências de notícias, o tenente Mario Adrián Vázquez Téllez no console infravermelho e o tenente Germán Marín Ramírez no radar. O avião voava a 10.500 pés segundo o informe de Maussan, 3.500 metros segundo as agências, num tempo que o físico óptico da Marinha americana Bruce Maccabee, o analista de fotos favorito dos ufólogos, leu no boletim meteorológico do dia como bom para voar: bruma, vento de cauda de seis milhas por hora vindo do sudeste, cúmulos esparsos com o topo na altura da aeronave.

Fotografia colorida de um avião turboélice bimotor cinza, de fuselagem longa e fina, com as palavras Fuerza Aerea Mexicana na lateral, a matrícula 3902 na cauda e uma carenagem de radar bojuda sob a barriga, estacionado num pátio de concreto em luz enevoada, com outras aeronaves atrás.
Um Fairchild Merlin C-26A da Força Aérea Mexicana, matrícula 3902, com a carenagem ventral de radar da versão de vigilância, no pátio da base aérea de Santa Lucía em fevereiro de 2006. A Força Aérea nunca disse qual aeronave voou em 5 de março de 2004. Foto: Zahpo75, cedida ao domínio público, via Wikimedia Commons. Fonte da imagem · Public domain · released by the photographer, Zahpo75

Fontes: A Study of the March 5, 2004 Radar and FLIR Sightings during a Surveillance Flight by the Mexican Department of DefenseThe big news Mexican military UFO report of 2004“I Forbade Any Talk of UFOs or Flying Saucers” — Gerardo Clemente Vega García, Mexican Secretary of DefenseMuestran flotilla de ovnis por televisiónSedena confirma avistamiento de ovnis en México detectado por la Fuerza Aérea MexicanaThe Campeche, Mexico ‘Infrared UFO’ Video

Um alvo que não se deixava ver

A câmera tinha gravado alguns minutos por volta da uma da tarde e depois nada durante três horas e meia. Quando voltou a gravar, às 16h42, o radar já tinha alguma coisa, e a tripulação a anunciava na taquigrafia de relógio dos aviadores, em que doze horas é bem à frente: “OK, está quase às 12 horas, 2,9 de distância, 75 de velocidade”, a distância em milhas náuticas, a velocidade em nós. Um momento depois alguém identificou lá embaixo uma pista chamada Candelaria. O alvo aparecera, segundo a reconstrução de Maccabee, cerca de cinco milhas à frente e trinta graus à esquerda, perto dessa cidade, movendo-se para noroeste mais devagar que o Merlin, e a tripulação supôs que um avião pequeno acabara de decolar de uma pista clandestina. “Um tráfego”, diz uma voz às 16h45. Outra pede o oficial do quartel-general, um certo capitão Danzón, “para avisá-lo de que estamos lendo um alvo”. “Está marcando 2-106 de velocidade e tem rumo de 301.” O Merlin virou para segui-lo e, por uns dez minutos, aproximou-se até cerca de 2,3 milhas e não mais, enquanto a velocidade do alvo subia e descia de um jeito que o operador de radar achou estranho. Ninguém conseguia vê-lo pelas janelas. A câmera, capaz de distinguir os motores quentes e o revestimento morno de uma aeronave, não encontrou nada onde o radar dizia que ele estava. “O que é, Juárez? Juárez, o que é?” “É um ponto.” Juárez é um quarto tripulante que a fita nomeia e nenhum documento identifica. Às 16h51min24s uma fonte de calor muito brilhante apareceu doze graus à direita do nariz e quatro graus abaixo da horizontal, ficou ali por alguns segundos e sumiu. Oito segundos depois o gravador foi desligado enquanto o piloto, com pouco combustível, iniciava uma curva à direita de quase cento e cinquenta graus rumo à base. Quando voltou a gravar, um minuto depois, o Merlin voava para leste, e o alvo estava atrás dele. “Agora está na nossa posição de 7 horas, a 10,5 milhas de distância. Seu rumo é 2-8-3, com velocidade de 3-3-4.” São 334 nós, cerca de 380 milhas por hora. “Não o tenho na tela, mas o radar continua marcando a distância em 37 milhas.” “Agora está sobre Carmen.” “Está passando por Carmen.” “Está fazendo a curva.” Ele se apagou no limite do alcance do aparelho, a pouco mais de quarenta milhas atrás do avião. Marín diria depois a Maussan que as velocidades tinham saltado, de 60 para 120 e para 300 nós, e na televisão mexicana: “no sé de 60 nudos e incrementándose a 120, 220 o 300 nudos, cosa que jamás había visto”, coisa que ele jamais tinha visto. “Só uma luz”, diz uma voz às 16h59. “Não dava para distinguir.”

Mapa do oeste do estado de Campeche com o Golfo do México em azul-claro. Uma linha vermelha contínua segue para noroeste a partir de um ponto com a legenda 16:42 contato de radar, perto de Candelaria, vira bruscamente para leste às 16:51 e continua passando por pontos com as legendas 17:03 os gêmeos, 17:07 onze luzes e 17:15. Uma seta cinza tracejada vai da linha vermelha para noroeste até Ciudad del Carmen. Duas linhas laranja pontilhadas partem da rota vermelha, bem a noroeste, até três pontos laranja no Golfo com as legendas plataformas de Cantarell, Akal-J, Akal-C, Nohoch-A, e a legenda azimute da câmera de menos 134 a menos 139 graus.
A geometria da tarde. O Merlin seguiu seu alvo de radar para noroeste a partir de Candelaria, virou para leste em busca de combustível às 16h51 e, a partir das 17h03, sua câmera, apontada de 134 a 139 graus à esquerda do nariz, olhou por cima da Laguna de Términos na direção das plataformas de Cantarell, a cem milhas de distância. A linha cinza tracejada é a trajetória do alvo de radar até Ciudad del Carmen, onde ele se apagou. As posições foram plotadas a partir da latitude e da longitude da faixa de dados da fita, tal como registradas por Maccabee e Franz; o início da rota é aproximado. Mapa-base: Addicted04, CC BY-SA 3.0, via Wikimedia Commons. Fonte da imagem · CC BY-SA 3.0 · base map by Addicted04; overlay by uap.fun

Fontes: A Study of the March 5, 2004 Radar and FLIR Sightings during a Surveillance Flight by the Mexican Department of DefenseThe big news Mexican military UFO report of 2004Unidentified, Invisible Aerial Objects Videotaped in Infrared by Mexican Air Force PilotsLos ovnis de Campeche (México), de actualidad nuevamenteUFOs appear in Mexico (again)!

Os gêmeos

Quando a fita recomeçou depois da curva, a câmera olhava para a lateral e o topo de uma nuvem. O operador procurou a luz que perdera antes da curva e, às 16h52min49s, uma mais fraca, ou mais provavelmente outra, deslizou por trás da borda direita da nuvem. “Lá vai! Lá vai!!” Parecia estar à distância da nuvem ou além dela, na mesma altitude do avião, e acompanhar o avião. “O que pode ter sido?” “Não sei. Foi para o outro lado, exatamente onde eu o tinha.” “Pelo menos temos contato com ele no FLIR”, diz uma voz, “e tivemos contato de radar o tempo todo”, embora o alvo de radar estivesse a essa altura a quarenta milhas, do outro lado de Ciudad del Carmen, e essa luz estivesse junto à asa esquerda. Foi encoberta por nuvens pequenas, depois perdida atrás de uma maior, e o gravador foi desligado de novo. Às 17h03min34s voltou a gravar, e uma voz relata uma luz às sete horas, na mesma altitude. “Olha como aparece. Parece que está em duas partes.” “O estranho é que tem um ponto viajando na frente. Um pontinho, à frente dele.” O par que agora enchia a tela era tão brilhante que saturava o sensor e se abria em dois discos brancos e gordos lado a lado, as luzes que os analistas chamariam de “os gêmeos”, com uma fileira de companheiras mais fracas ao lado. A faixa de dados marcava um azimute da torreta de cerca de menos 134 graus, isto é, 134 graus à esquerda do nariz e bem atrás da asa, uma elevação de mais dois a três graus e o campo de visão médio, uma janela de 3,4 graus de largura. “Não está lá? Lá vai outro.”

Fotografia aérea tirada da órbita de uma cidade cinza e densa cobrindo uma ilha baixa, com uma única pista cortando-a na diagonal pelo centro, praias claras ao longo da margem inferior, águas rasas turquesa e uma laguna marrom de cada lado.
Ciudad del Carmen em sua ilha entre a Laguna de Términos e o Golfo, fotografada da Estação Espacial Internacional em janeiro de 2024. O primeiro alvo de radar se apagou da tela do Merlin ao passar sobre a cidade; o aeroporto da ilha não registrou nada voando. Foto: NASA, tripulação da Expedição 70, cortesia da Earth Science and Remote Sensing Unit, NASA Johnson Space Center; domínio público. Fonte da imagem

Fontes: A Study of the March 5, 2004 Radar and FLIR Sightings during a Surveillance Flight by the Mexican Department of DefenseThe big news Mexican military UFO report of 2004UFO’s or simply Oil Well Gas flames? Part I: Reference Data

“Son diez, once objetos”

Entre 17h03 e 17h09 o operador da câmera fez a torreta percorrer a fileira de volta e começou a contar. “Vêm mais. Há mais... estão atrás. São dez, onze objetos.” “Há muitos objetos.” “Comandante, o que é aquilo?” O operador, Téllez para os colegas, levou o zoom ao limite, o campo mais estreito, de 0,4 por 0,3 grau. “Meu Deus, o que é aquilo.” “O que é aquilo? Vamos ver. Tenta focar.” “Está no máximo.” “Segue aquele, Téllez, não larga.” As luzes se estendiam mais ou menos em linha e em pequenos grupos, dois aglomerados de três que os analistas chamariam de “os trigêmeos”, e, enquanto a tripulação olhava, uma delas se dividiu em duas. “Um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete, tenho oito na tela.” “Oito, nove, dez, onze, contando todos os de trás.” “Dois, quatro, seis, oito, dez, onze.” O comandante falou pelo rádio: “Escute, não sabemos o que estamos vendo, são objetos luminosos que estão voando na mesma altitude que nós. Não sabemos qual é a distância deles.” O operador de radar não tinha nada. “Às 9. Acho que o radar não consegue lê-lo, temos um ângulo cego ali, senhor.” “Temos 20 graus de ângulo cego ali.” As luzes passaram por trás de nuvens que Maccabee situou depois a cerca de vinte e cinco milhas do avião por paralaxe, o deslocamento das coisas mais próximas contra as mais distantes à medida que a aeronave avança, e se perderam; o operador desligou o gravador às 17h09. A tripulação nunca as viu pelo vidro. Em espanhol, como as falas foram citadas depois no México: “Ahí van más, mire más atrás, son diez, once objetos.” “¿Qué es eso Dios mío?” “Están a nuestra altura, no puede ser.”

Fontes: The big news Mexican military UFO report of 2004A Study of the March 5, 2004 Radar and FLIR Sightings during a Surveillance Flight by the Mexican Department of DefenseOvnis en la Plataforma Nacional de TransparenciaIncidente OVNI del Escuadrón 501 en CampecheUFOs appear in Mexico (again)!

“No estamos solos”

O gravador ficou desligado por quase seis minutos. Quando voltou a gravar, às 17h14min58s, havia uma luz muito brilhante e duas mais fracas às nove horas, contra um fundo sem nenhum detalhe, e o operador de radar tinha um novo contato próprio. “Estão às 12, ele disse.” “Não. Estão à 1.” “Bom, esse é um, mas temos outro às 9.” “Temos eles à frente, no meio e às 8.” Alguém ri: “Apertem os cintos!” “Não se assustem.” O homem do radar dá seus números: “O que temos à 1 da nossa posição, tenho a 19 milhas, à 1 hora da nossa posição, a 52 nós.” “Isso quer dizer que estamos cercados?” “Bom... não sei.” “Rapazes, hoje é o dia de sorte de vocês!” Então, às 17h16, com uma luz visível através do arco da hélice esquerda: “Não estamos sozinhos.” Risos. “É, não estamos sozinhos, certo. É verdade. Que coisa estranha, estão nos cercando.” “Não pode ser a porra de um avião, está parado ali!” O contato de radar à uma hora foi se aproximando, 14,8 milhas, depois 10, a 52 nós, com rumo de 99. Às 17h19 a câmera girou para a frente e encontrou a lua recém-nascida à frente do nariz; os analistas usariam esse nascer da lua para conferir o rumo do avião e as leituras da torreta. Às 17h26 o comandante informava a base de novo: “O radar tem eles. O FLIR tem eles. Estamos vendo no FLIR um objeto luminoso, tem rumo oposto ao nosso, mas não nos deixa, está duas milhas atrás de nós.” “Não se afasta de nós, não, não se afasta de nós.” “Correto, vai saber o que é.” “Ainda está conosco, Marín?” “Sim, ainda o tenho aqui.” Às 17h27: “O que tínhamos à 1 se perdeu agora.” “Acabou de sair do radar.” “Que estranho é tudo isso.” O Merlin voltou para casa para reabastecer. As falas que o México citaria durante vinte anos foram as espanholas: “Los tenemos adelante, en medio y atrás.” “Hoy es tu día de suerte.” “No estamos solos.” “¡Qué cosa tan rara! Nos están rodeando, ¿eh?”

Fontes: The big news Mexican military UFO report of 2004Ovnis en la Plataforma Nacional de TransparenciaA Study of the March 5, 2004 Radar and FLIR Sightings during a Surveillance Flight by the Mexican Department of DefenseThe Campeche, Mexico ‘Infrared UFO’ VideoUFOs appear in Mexico (again)!

Duas opções

O cassete subiu pela cadeia de comando. “Isto foi levado à Secretaria da Defesa”, disse dois meses depois o secretário, o general Gerardo Clemente Ricardo Vega García, numa tradução de sua entrevista ao rádio: foi analisado com pilotos e pessoal técnico do estado-maior. Seu primeiro pensamento, contou, foram aviões do narcotráfico, até ver com a tripulação que as luzes estavam atrás da aeronave, à frente do nariz e dos lados, e “dije, ya no pueden ser tantos aviones”, não podiam ser tantos aviões. O aeroporto de Ciudad del Carmen, disse ele, não registrara absolutamente nada voando na área. A tripulação, quando Maussan a entrevistou, estava segura do que suas telas haviam mostrado. “La distancia más cercana (a que estaban) fue de dos millas”, disse Castañón: a menor distância a que chegaram foi de duas milhas, e a experiência lhes dizia que a essa distância uma coisa podia ser identificada. “Les dimos seguimiento y creo que sintieron que los estábamos persiguiendo”, nós os seguimos e creio que sentiram que os estávamos perseguindo; quando deixaram de segui-los, disse ele, os objetos desapareceram. “¿Sentí temor? Sí”, disse Marín. “Un poco de miedo porque estábamos ante algo que nunca había pasado.” “No sabría decir qué era”, disse Vázquez, o operador do infravermelho, “pero deben ser completamente reales”, e não havia como, insistiu, pôr no FLIR algo que não estivesse lá fora. O diretor de comunicação da Secretaria, o general de brigada Efrén Martínez Guzmán, escreveria mais tarde que o estado-maior vira “dos opciones: archivarlo como secreto o bien entregarlo a una persona que conociera sobre el asunto, tratando de evitar que se prestara a choteo”, duas opções: arquivá-lo como secreto ou entregá-lo a alguém que conhecesse o assunto, tentando evitar que virasse chacota. A pessoa que eles conheciam era Jaime Maussan, apresentador da Televisa, a rede de televisão dominante no país, que era o rosto do óvni no México desde o eclipse de 11 de julho de 1991, quando espectadores de todo o país filmaram um ponto brilhante ao lado do sol escurecido e suas transmissões fizeram disso o início de uma onda nacional; céticos como Tim Printy identificam o ponto como o planeta Vênus. Em 20 de abril um oficial graduado lhe telefonou; em 21 de abril ele se reuniu com o general e seu estado-maior; em 22 de abril recebeu uma cópia da fita. “No veía la utilidad de que se quedara eso grabado ahí, guardado”, disse Vega à W Radio: não via utilidade em deixar aquilo gravado e guardado, “(y) tomé la decisión de que se le diera a una gente que ha estado trabajando toda su vida con esto para que hiciera buen uso de ella. Por eso se le dio a Maussán.” Em 1º de maio Maussan sentou os três oficiais na Secretaria e gravou suas entrevistas.

Fotografia colorida de um homem de cabelos grisalhos em uniforme militar de gala escuro, com dragonas douradas, fileiras de barretas e uma medalha numa fita magenta ao pescoço, de pé diante de uma janela e de bandeiras.
O general Gerardo Clemente Ricardo Vega García, secretário da Defesa Nacional do México de 2000 a 2006, no Pentágono em maio de 2006. Ele decidiu entregar a fita a “alguém que entendia dessas coisas”. Foto: Robert D. Ward, US Department of Defense, domínio público, via Wikimedia Commons. Fonte da imagem

Fontes: Son centellas, no ovnis: científicos“I Forbade Any Talk of UFOs or Flying Saucers” — Gerardo Clemente Vega García, Mexican Secretary of DefenseWhy Mexican Scientists Did Not Get UFO EvidenceMuestran flotilla de ovnis por televisiónLa Sedena y los OVNISMexican Air Force Pilots Film 11 UFOs — case 263Mexican Air Force Pilots Film 11 UFOsUFOs appear in Mexico (again)!

“Notícia histórica”

Maussan antecipou o caso no domingo, 9 de maio, em seu programa na Multimedios, em Monterrey. Na noite de segunda-feira o telejornal nacional da Televisa exibiu as imagens, e a emissora anunciou que uma análise quadro a quadro mostrava dezesseis objetos “cuyos movimientos y características no tienen -hasta ahora- una explicación científica”. Às onze da manhã de terça-feira, 11 de maio, Maussan deu uma entrevista coletiva no Hotel Sevilla Palace, na Cidade do México, mostrou quinze minutos da fita, exibiu as entrevistas da tripulação e distribuiu um documento informativo em que o Merlin estava “cercado por onze misteriosos objetos de forma arredondada, camuflados com uma certa tecnologia avançada desconhecida”, o major declarava alerta vermelho e apagava as luzes da aeronave, e nove novos objetos chegavam “como que vindos do nada”. Nada disso está na fita, em que as luzes são contadas às nove horas e a sensação de cerco vem de somar um eco de radar à uma hora à fileira de fontes de calor da câmera, mas foi a versão que o mundo recebeu. “Esta é uma notícia histórica”, disse Maussan aos repórteres. “Existem centenas de vídeos (de óvnis), mas nenhum tinha o respaldo das forças armadas de algum país... As forças armadas não cometem fraudes.” “Eram invisíveis a olho nu, mas estavam lá, não há dúvida. Tinham massa, tinham energia e se moviam.” Um porta-voz do Ministério da Defesa confirmou à Associated Press, sob a habitual condição de anonimato, que a fita fora filmada pela Força Aérea Mexicana e se recusou a dizer mais; o ministério disse o mesmo à Reuters. À noite a história estava em todas as agências, muitas vezes com o Merlin, um turboélice que não leva armas, transformado em “jatos militares” que perseguiam as luzes. A contagem era onze em inglês e dezesseis em espanhol. O La Jornada, o diário de esquerda da capital, já tinha decidido o que pensava: “Como si de estos días para acá el circo fuera poco, ahora la Fuerza Aérea pretende recetarnos una de Ovnis”, como se o circo destes dias não bastasse, agora a Força Aérea quer nos receitar uma dose de óvnis.

Retrato de estúdio de um homem de cabelos brancos e barba curta grisalha, de terno azul e gravata listrada, de pé contra um fundo preto.
Jaime Maussan, o apresentador da Televisa que recebeu a fita e a chamou de notícia histórica, num retrato carregado no Wikimedia Commons em 2015. Foto: Dimaussan, CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons. Fonte da imagem · CC BY-SA 4.0 · Dimaussan

Fontes: Mexican Air Force Pilots Film 11 UFOsMexico Air Force video creates UFO stirMuestran flotilla de ovnis por televisiónFuerza Aérea detecta 16 ovni en el cielo de CampecheMexican Air Force Pilots Film 11 UFOs — case 263The big news Mexican military UFO report of 2004Unidentified, Invisible Aerial Objects Videotaped in Infrared by Mexican Air Force Pilots

O general no rádio

Na manhã de quarta-feira Vega García atendeu ao telefone no programa de Carlos Loret de Mola na W Radio. O México vivia naquela primavera os videoescándalos, uma temporada de vídeos vazados de políticos que começara em março com imagens de um deputado da Cidade do México enfiando maços de dinheiro numa pasta, e o general sabia o que se dizia: já se afirmava, contou a Loret, que a fita era uma distração da atualidade. “Esse não é meu propósito, nem eu, como militar, me dedico a esse tipo de atividade.” Ele tinha, disse, proibido qualquer conversa sobre óvnis ou discos voadores, “porque se presta a choteo”, porque se presta à chacota, e a Força Aérea falara apenas de “alguns contatos muito estranhos, incompreensíveis nessa situação”. Perguntado se tinha alguma hipótese própria: “Não tenho hipótese. Tudo o que posso dizer é que essas manchas brancas estão lá, foram gravadas, e essa é toda a informação que temos.” Não era, disse, uma questão de segurança nacional. “Es el punto de vista de Maussan”, disse sobre a leitura que o ufólogo fazia da fita: “para eso se le dio, para que pudiera sacar él sus conclusiones”, foi para isso que a deram a ele, para que pudesse tirar as próprias conclusões. Loret lhe disse que a comunidade científica estava incomodada. “Nosotros no sabíamos quiénes eran (los científicos). No los conocemos”, respondeu o general: não sabíamos quem eram os cientistas; não os conhecemos. O material, acrescentou, estava à disposição de quem quisesse analisá-lo.

Fontes: “I Forbade Any Talk of UFOs or Flying Saucers” — Gerardo Clemente Vega García, Mexican Secretary of DefenseWhy Mexican Scientists Did Not Get UFO EvidenceSon centellas, no ovnis: científicosLa Fuerza Aérea de México podría haber registrado un avistamiento de ovnis, pero ya no tiene los videos

Raios globulares por um dia

Não era o que os físicos tinham encontrado. Rafael Navarro González e Julio Herrera Velázquez, do Instituto de Ciências Nucleares da Universidad Nacional Autónoma de México, a UNAM, a universidade nacional, tinham telefonado à Secretaria pedindo a frequência do radar, a altitude e a velocidade do avião e a velocidade das luzes, informou o La Jornada na quinta-feira, e tinham recebido uma única resposta: “la información que ustedes solicitan es clasificada”. Naquela tarde a universidade deu sua própria entrevista coletiva e divulgou um boletim: os fenômenos registrados do avião da Sedena “son centellas o descargas eléctricas, que por primera vez pudieron haberse presentado en la parte alta de la atmósfera”, raios globulares ou descargas elétricas, vistos pela primeira vez no alto da atmosfera, e não, deixaram claro os cientistas, naves com extraterrestres dentro. Navarro mostrou um vídeo de laboratório de uma minúscula bola de plasma e sugeriu que, como as descargas são atraídas pelo metal, as luzes tinham tentado se aproximar da aeronave. O diretor do Instituto de Astronomia admitiu que nada se podia concluir de fato sem as características da câmera e as distâncias. Outros cientistas mexicanos já tinham oferecido fragmentos de meteoros, lixo espacial e balões meteorológicos. O lado de Maussan encontrou um aliado no serviço meteorológico: Alberto Hernández Unzón, seu subgerente, disse no programa de Maussan por volta de 17 de maio que o dia 5 de março tivera estratos estáveis e nenhuma condição para raios, que nenhum balão fora lançado e, na tradução de Santiago Yturria, que “dizer que essas luzes do vídeo são raios globulares ou faíscas elétricas é um disparate”. A Secretaria, enquanto isso, protestou contra uma charge no La Jornada, e a carta do general Martínez Guzmán tirou a lição de que o episódio “deja como enseñanza la necesidad de que en posteriores ocasiones no se proporcione nada”, de que em ocasiões futuras não se deveria fornecer absolutamente nada. O colunista Raúl Trejo Delarbre perguntou-se na La Crónica por que um ministério responsável pela segurança nacional, de posse de uma gravação que não sabia explicar, recorrera a um jornalista “célebre por las convicciones que ha manifestado sobre el origen extraterrestre de los OVNIS” em vez de aos astrônomos do país. Maussan respondeu que tinha sido “extraordinariamente cuidadoso en no mencionar el termino extraterrestre” e que o general merecia reconhecimento, não críticas.

Fontes: Son centellas, no ovnis: científicosCentellas o descargas eléctricas, los fenómenos registrados desde un avión de la SedenaThe big news Mexican military UFO report of 2004La Sedena y los OVNISUnidentified, Invisible Aerial Objects Videotaped in Infrared by Mexican Air Force Pilots

Os números na tela

A fita estava na internet havia dias quando alguém leu a faixa de dados. Num fórum de céticos, em 14 de maio, um participante chamado Richard Gemmell notou que as marcações da torreta apontavam para o Golfo, e outra pessoa sugeriu plataformas de petróleo. Quem construiu o argumento foi Alejandro Franz Navarrete, comandante da Aeroméxico e ex-controlador de tráfego aéreo que voara a costa de Carmen em aviões leves nos anos 1970 e já tinha cruzado espadas com Maussan antes. Suas páginas entraram no ar em alcione.org na segunda quinzena de maio e, em 26 de maio, ele as publicou na lista de discussão dos ufólogos com o título “UFOs Or Simply Oil Well Flames?”, óvnis ou simplesmente chamas de poços de petróleo? Seu caso se apoiava numa observação que qualquer um podia conferir: enquanto as luzes pareciam derivar, se dividir e acompanhar o avião, “o AZIMUTE (Az) NUNCA MUDA mais de DOIS ou QUATRO graus”. A câmera marcava entre menos 134 e menos 139 graus enquanto o avião voava para leste, o que significava que apontava um pouco a oeste do noroeste, e nessa direção, a uns oitenta quilômetros da costa de Ciudad del Carmen e a mais de cem milhas do avião, ficava o complexo de Cantarell, o maior campo de petróleo do México, onde, como diria Sheaffer, mais de duzentos poços em nove plataformas queimavam gás em lanças dia e noite. As nuvens atravessavam a imagem; as luzes atrás delas não se moviam. A 3.500 metros o horizonte fica a uns 211 quilômetros, como observou Robert Sheaffer na Skeptical Inquirer quando Maussan objetou que chamas a 125 ou 200 quilômetros não poderiam ter sido vistas, e, como notou Tim Printy, a mesma câmera captara nuvens, rios, linhas de costa e a lua na mesma fita. O engenheiro de infravermelho John Lester Miller disse a Sheaffer que a tripulação não conseguir ver as luzes não significava nada: “Esses sistemas são projetados especificamente para detectar objetos que o olho humano não consegue ver.”

Imagem de satélite do sul do México à noite, a terra negra com luzes brancas de cidades espalhadas ao longo da costa do Golfo e pela península de Yucatán, contornos finos marcando o litoral e um único nó de luz brilhante e isolado, sozinho no mar negro da Baía de Campeche.
Como o Golfo aparece para um sensor que enxerga luz à noite: o campo de tochas de Cantarell e Ku-Maloob-Zaap é o nó brilhante isolado na Baía de Campeche escura, mais brilhante que a maioria das cidades da costa. Satélite Suomi NPP, banda dia-noite do VIIRS, 26 de julho de 2012. Imagem do NASA Earth Observatory por Jesse Allen e Robert Simmon, domínio público. Fonte da imagem

Fontes: UFO’s or simply Oil Well Gas flames? Part I: Reference DataUFOs Or Simply Oil Well Flames?The Campeche, Mexico ‘Infrared UFO’ VideoUFOs appear in Mexico (again)!Ovnis mexicanos: caso cerrado

Três plataformas

Em junho, um engenheiro aeroespacial de Fairfax, na Virgínia, James C. Smith, fez a parte difícil e a publicou na eSkeptic em 24 de julho. Os dados médios de luzes noturnas do Defense Meteorological Satellite Program mostravam boa correlação entre o apontamento da câmera e as plataformas brilhantes, mas não separavam uma tocha da outra; as cenas do satélite Landsat, de quinze a trinta metros por pixel, separavam, cada tocha saturando o sensor, e assim ele localizou cada uma, construiu um modelo tridimensional da visada da câmera e fez coincidir o trecho dos “dez óvnis” das 17h06min53s com três plataformas: “Akal-C com 4 tochas, Akal-J com 4 tochas e Nohoch-A com 2 tochas”, a 110 a 120 milhas. A luz que se dividiu em duas era “uma tocha mais distante que parecia sair de trás de outra mais próxima por causa do movimento da aeronave”. Uma luz brilhante anterior na fita, a 82 milhas, coincidia com as tochas em terra de Atasta. A objeção mais forte era a elevação: a faixa marcava mais dois a três graus, acima da horizontal, onde plataformas no mar deveriam marcar quase dois graus abaixo. Smith, Sheaffer e um ex-engenheiro da FLIR Systems, Tim Wescott, responderam que a torreta estava num modo vinculado à fuselagem, de modo que um avião em cruzeiro com o nariz levantado inclina a leitura em alguns graus; o pesquisador Brad Sparks verificou pelo nascer da lua que a câmera marcava um grau a menos quando a lua estava a 1,3 grau de altura, e usou isso como argumento contra as tochas, e Printy inverteu o número, já que um erro que aponta para baixo à frente aponta para cima atrás. Printy, astrônomo amador de New Hampshire, mediu então as imagens. As quatro tochas de Akal-C, espalhadas por cerca de 1.725 pés, deveriam ocupar de 95 a 97 pixels no campo mais estreito; ele contou 94. O par de Nohoch-A deveria ocupar 35; ele contou 34. O analista chileno Andrés Duarte chegou ao mesmo resultado por seu próprio caminho, e o físico Claude Poher, fundador do GEPAN, o grupo oficial de estudo de óvnis da agência espacial francesa, concluiu pelo nascer da lua que a elevação estava mal calibrada e as luzes eram distantes, e em setembro anunciou à lista vinte e nove fotografias das tochas do Golfo. No fim de outubro, o NARCAP, o National Aviation Reporting Center on Anomalous Phenomena, o grupo de relatos de pilotos dirigido por Richard Haines, que de início reclamara de uma cadeia de custódia rompida, aplaudia o comandante “por sua atenção aos detalhes e por sua objetividade”.

Imagem de satélite de um mar azul-escuro com dezenas de minúsculas formas castanhas de plataformas espalhadas, várias delas arrastando longas plumas brancas de fumaça em direção ao canto inferior direito.
As plataformas de Cantarell vistas pelo Landsat 8 em 20 de janeiro de 2017, com as tochas arrastando fumaça a favor do vento. James C. Smith usou cenas do Landsat como esta, de quinze a trinta metros por pixel, para localizar cada tocha e fazer coincidir o trecho dos “dez óvnis” com Akal-C, Akal-J e Nohoch-A. Imagem do NASA Earth Observatory por Joshua Stevens, com dados do Landsat do US Geological Survey; domínio público. Fonte da imagem

Fontes: The Mexican Air Force UFO Affair: Aliens, Ball Lightning, or Flares?The Campeche, Mexico ‘Infrared UFO’ VideoUFOs appear in Mexico (again)!FLIR Conclusion: Mexican Air Force FLIR images are Oil Well flames!Ovnis infrarrojos de Campeche: una explicación viableUFO UpDates, September 2004Observation de Campeche

“Cocô de pelicano” e uma mudança de opinião

A lista não recebeu bem a ideia. “Tochas de plataformas de petróleo rastreadas por radar perto da altitude da aeronave! Absolutamente incrível!”, escreveu o pesquisador Ray Stanford no dia seguinte, antes de se recusar a passar o dia “chapinhando em cocô de pelicano”, sendo pelicano, naquele meio, um desmistificador, e de sugerir que o motivo do comandante era “sua velha antipatia por Jaime Maussan”. David Rudiak montou uma prova de múltipla escolha de brincadeira em que a última opção era “F. Poços de petróleo invisíveis e voadores, etc., etc., etc.” Alfred Lehmberg acrescentou: “Faróis planadores e pelicanos cheios de gases?” Santiago Yturria, colaborador de Maussan em Monterrey, escreveu que o radar do Merlin “não consegue detectar chamas de petróleo a nenhuma distância” e, no fim de setembro, que “a farsa das chamas de petróleo de Cantarel foi desmascarada em rede nacional” durante uma transmissão ao vivo de duas horas do Grandes Misterios de Maussan, que, segundo o relato de Franz, o acusou de desacreditar a Força Aérea e citou seu empregador no ar. “As palavras não significam nada”, escreveu Yturria, “o fenômeno significa tudo.” A cabeça mais interessante do lado dos crentes era a de Maccabee. Na mesma semana ele o chamara de “um caso de radar, não visual e infravermelho, o que o torna único”. Em 27 de maio escreveu que as luzes saindo de uma nuvem com céu escuro atrás “provam que estavam no nível das nuvens e não no solo”. Pediu à Força Aérea um voo de calibração pela mesma rota, ouviu que seria feito, e esperou. Em 17 de setembro tinha olhado de novo: “Procurei com cuidado provas claras desse ‘brilho não diminuído diante das nuvens’... e não encontrei nenhuma. O que encontrei por triangulação... são grandes distâncias até as luzes.” “É provável que os objetos estivessem muito mais longe que as nuvens e que o movimento diante delas seja uma ilusão. A questão-chave é: estavam acima do horizonte?” Seu estudo de cerca de cem páginas, divulgado em 27 de dezembro, admitia que, “se a calibração da elevação do FLIR ao olhar para a esquerda estava errada em vários graus (apesar da calibração com a elevação da lua), então esses grupos de luzes podem ter sido luzes distantes no solo (c. 100 milhas), por exemplo, chamas de gás”. Em janeiro escreveu que, depois de horas tentando ele mesmo encontrar uma correspondência perfeita, “essencialmente ‘joguei as mãos para o alto, desesperado’”, e que o trabalho de Smith tornava a hipótese do campo de petróleo plausível para muitas das luzes, se não todas. O voo de teste nunca foi feito. Franz fez os seus: em 3 e 4 de setembro de 2004, da cabine de comando de MD-80 da Aeroméxico a 31.000 e 33.000 pés, filmou luzes sobre o Golfo “muito parecidas com as ‘luzes’ do FLIR”; em 29 de outubro uma equipe da National Geographic voou a rota com ele a partir de Villahermosa num King Air fretado; em 14 de abril de 2005 ele gravou as tochas de Cantarell em infravermelho e em cores lado a lado. Em 2012 a série Chasing UFOs, da mesma emissora, fretou um voo com FLIR pela mesma rota num dia em que, por acaso, as plataformas não estavam queimando gás, e não conseguiu nada, mas seu coapresentador, o geocientista Ben McGee, traçou as linhas de visada das coordenadas da faixa até as plataformas e reproduziu no papel o padrão das onze luzes, divisão incluída. “Ou havia algum tipo de nave pairando exatamente sobre cada torre”, disse ele, “ou eram só as torres.”

Fotografia panorâmica de uma praia de areia clara ao entardecer, uma linha baixa de arrebentação verde-azulada e, ao longo do horizonte rosado, uma fileira de minúsculas silhuetas escuras de plataformas e navios ao largo.
Plataformas e navios no horizonte de Ciudad del Carmen ao entardecer, em agosto de 2020. Da costa, as tochas são uma visão familiar; a 10.500 pés e a cem milhas de distância, eram outra coisa. Foto: Cvmontuy, CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons. Fonte da imagem · CC BY-SA 4.0 · Cvmontuy

Fontes: UFOs Or Simply Oil Well Flames?UFO UpDates, September 2004UFO UpDates, January 2005Unidentified, Invisible Aerial Objects Videotaped in Infrared by Mexican Air Force PilotsA Study of the March 5, 2004 Radar and FLIR Sightings during a Surveillance Flight by the Mexican Department of DefenseFLIR Conclusion: Mexican Air Force FLIR images are Oil Well flames!Famous Mexican UFO video debunked by TV hostMexican Air Force UFO Video — Oil Rigs

O dossiê que foi para um jornalista

O México aprovara sua primeira lei federal de acesso à informação em 2002, e a Secretaria da Defesa Nacional logo aprendeu o que isso significava. Em 16 de junho de 2004, um cidadão pediu os arquivos eletrônicos dos supostos óvnis. A resposta veio numa folha em branco, sem timbre nem assinatura: “el material que solicita fue entregado al señor Jaime Maussan, por lo que únicamente en esta Secretaría quedó en resguardo y en calidad de secreto”, o que ficara com o ministério estava guardado como secreto. Em 2007 a Secretaria disse não possuir nenhuma prova física de óvnis, apenas o registro de “puntos luminosos en Campeche el 5 de marzo de 2004”, e que a informação fora entregue “en original” ao jornalista, que a repassara a diversos centros de pesquisa, “desconociéndose cuál fue su naturaleza”, sem que se saiba que centros eram esses. Em 2008 outros dois solicitantes foram orientados a pedir uma cópia a Maussan. Em 2016 o ministério respondeu em papel timbrado, com os artigos da lei, que “no se cuenta con información escrita de la entrega del video”, não havia registro escrito da entrega, e ofereceu um link do YouTube para a entrevista coletiva. Em 2019, consultado sobre o número, as patentes, as idades e as avaliações psicológicas da tripulação, e sobre o documento de entrega, informou que “después de realizar una búsqueda exhaustiva” não se encontrara nenhuma prova documental. Então, em setembro de 2021, respondendo à jornalista Laura Sánchez Ley, produziu a única descrição oficial do episódio que existe, que ela resumiu no Twitter: uma aeronave da Força Aérea, em 5 de março de 2004, “tuvo un avistamiento OVNI en la costa de Campeche... Sus radares detectaron 3 ECOS y el FLIR STAR detectó un grupo de blancos térmicos”, com três oficiais a bordo cujos nomes não quis dar. Nada no registro mostra a Força Aérea adotando, ou rejeitando, as tochas, e nenhuma declaração posterior de nenhum dos três oficiais veio à tona.

Fontes: El día que la SEDENA creyó que había ovnis en México y entregó la única copia del video a Jaime MaussanLa Fuerza Aérea de México podría haber registrado un avistamiento de ovnis, pero ya no tiene los videosOvnis en la Plataforma Nacional de TransparenciaSedena confirma avistamiento de ovnis en México detectado por la Fuerza Aérea Mexicana

Dezesseis, depois dezoito

A história continuou crescendo do jeito que Michael Shermer descreveu na CNN na primeira semana, segundo a citação de Smith, “como história de pescador, crescendo a cada nova versão”: onze objetos viraram dezesseis, depois dezoito, e nas versões mexicanas posteriores os raios globulares dos físicos da UNAM, oferecidos por um dia e não levados adiante, tornaram-se a resposta aceita, atribuída num relato de 2023 à própria Secretaria, enquanto Cantarell some por completo. Quando os vídeos infravermelhos de cabine da própria Marinha americana vieram à tona em 2017, a fita de Campeche foi redescoberta como sua precursora mexicana, filmada oito meses antes de os pilotos do Nimitz encontrarem seu Tic Tac, e Maussan a mostrou de novo em 12 de setembro de 2023 na assembleia da Câmara dos Deputados sobre fenômenos anômalos, a sessão lembrada pelos dois corpos dessecados do Peru que ele apresentou como não humanos, dizendo aos deputados que os objetos eram visíveis a olho nu, a única coisa que a tripulação sempre negou. Em julho de 2025, um repórter perguntou à presidente Claudia Sheinbaum sobre o assunto em sua entrevista coletiva matinal. “Esa estuvo buena”, disse ela, essa foi boa; deixariam a questão para os cientistas e perguntariam ao Ministério da Defesa.

Fontes: The Mexican Air Force UFO Affair: Aliens, Ball Lightning, or Flares?Así fue el día en que la Sedena grabó 16 supuestos ovnis en el cielo de CampecheEste es el video de avistamiento de ovnis que grabó la Sedena en 2004 y llegó a manos de MaussanFuerza Aérea Mexicana captó presencia de 11 objetos anómalos en 2004: Maussan¿Sheinbaum cree en los ovnis? Esto dice sobre los presuntos avistamientos reportados por la Fuerza Aérea

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Fontes e entrevistas

As fontes permanecem no idioma original; seus títulos e descrições estão traduzidos.

Mexican Air Force Pilots Film 11 UFOsAssociated Press · 11 de maio de 2004 · o despacho sobre a entrevista coletiva de Jaime Maussan, com a confirmação anônima do porta-voz do Ministério da Defesa e as falas da tripulação · reproduzido pela CBS News como reportagem CBS/APMexico Air Force video creates UFO stirReuters · 11–12 de maio de 2004 · a confirmação do ministério à agência de que havia fornecido o vídeo; a “massa” e a “energia” de Maussan · ABC News (Austrália)Muestran flotilla de ovnis por televisiónAP e AFP · El Tiempo (Bogotá) · 12 de maio de 2004 · as falas da tripulação em espanhol, a contagem de dezesseis da Televisa e o “circo” do La Jornada · arquivo do El TiempoFuerza Aérea detecta 16 ovni en el cielo de CampecheEFE · El Tiempo (Bogotá) · 12 de maio de 2004 · a Secretaria da Defesa ao “no tener una explicación” · arquivo do El TiempoSon centellas, no ovnis: científicosLaura Poy · La Jornada · 13 de maio de 2004 · as palavras de Vega García na W Radio, e Navarro e Herrera, da UNAM, informados de que seu pedido era “clasificada” · arquivo do jornal (o texto também sobrevive na íntegra num comentário de leitor do mesmo dia em blog.com.mx)“I Forbade Any Talk of UFOs or Flying Saucers” — Gerardo Clemente Vega García, Mexican Secretary of DefenseFundación Cosmos · tradução de Scott Corrales · 12–13 de maio de 2004 · a entrevista ao programa “Hoy por Hoy”, da W Radio, com Carlos Loret de Mola · reproduzido pela UFO EvidenceWhy Mexican Scientists Did Not Get UFO EvidenceMilenio de Monterrey e Fundación Cosmos · tradução de Scott Corrales · 13 de maio de 2004 · “Material não entregue aos cientistas porque não os conhecemos”; “essas manchas brancas estão lá, foram gravadas, e essa é toda a informação que temos” · reproduzido pela UFO EvidenceCentellas o descargas eléctricas, los fenómenos registrados desde un avión de la SedenaBoletim UNAM-DGCS-355 · Universidad Nacional Autónoma de México · 13 de maio de 2004 · a entrevista coletiva do Instituto de Astronomia e do Instituto de Ciências NuclearesLa Sedena y los OVNISRaúl Trejo Delarbre · La Crónica de Hoy · 17 de maio de 2004, com a réplica de Jaime Maussan de 20 de maio · cita a carta da Secretaria da Defesa ao La Jornada: “dos opciones: archivarlo como secreto o bien entregarlo a una persona que conociera sobre el asunto” · republicado no blog do autor, 2005The big news Mexican military UFO report of 2004Patrick Gross · ufology.patrickgross.org · uma compilação dos materiais de maio de 2004: o documento informativo de Maussan, as entrevistas gravadas da tripulação, a transcrição em inglês de Yturria e Velez do áudio da fita do FLIR, a entrevista de Vega García e a declaração do serviço meteorológico na tradução de YturriaMexican Air Force Pilots Film 11 UFOs — case 263UFO Evidence · o texto da AP e o documento informativo de Jaime Maussan de 11 de maio de 2004, “The Facts”, com a sequência dramatizada do encontroIncidente OVNI del Escuadrón 501 en CampecheExpediente Oculto · março de 2012 · um relato mexicano que conserva as falas da cabine em espanhol: “Ahí van más, mire más atrás, son diez, once objetos”Los ovnis de Campeche (México), de actualidad nuevamenteJosep Guijarro · Espacio Misterio · 2018 · cita o relato do tenente Marín na televisão sobre as velocidades do radar, “cosa que jamás había visto”, e chama a hipótese de Cantarell de imaginativaUnidentified, Invisible Aerial Objects Videotaped in Infrared by Mexican Air Force PilotsLinda Moulton Howe · Earthfiles · 13–14 de maio de 2004 · entrevistas com Jaime Maussan e com o físico óptico da Marinha americana Bruce Maccabee nos primeiros dias: “um caso de radar, não visual e infravermelho”; os trinta e um minutos de relógio corrido da fitaUFO’s or simply Oil Well Gas flames? Part I: Reference DataComandante Alejandro Franz Navarrete · alcione.org · maio de 2004 · as leituras da faixa de dados do FLIR, as coordenadas das plataformas e a primeira formulação da hipótese de Cantarell · cópia de 2015 no Wayback Machine (o site não existe mais)FLIR Conclusion: Mexican Air Force FLIR images are Oil Well flames!Comandante Alejandro Franz Navarrete · alcione.org · parte II, atualizada até 2009 · as sobreposições de James C. Smith, Tim Wescott sobre o modo INRPT, a carta de Julio Herrera, o voo da National Geographic de 29 de outubro de 2004 e os voos do próprio Franz de 2004–2006 · cópia de 2015 no Wayback MachineUFOs Or Simply Oil Well Flames?Alejandro Franz · lista de discussão UFO UpDates · 26–27 de maio de 2004 · a mensagem que pôs a explicação de Cantarell diante dos ufólogos, e as respostas de Ray Stanford, David Rudiak, Alfred Lehmberg e Bruce Maccabee · arquivo mensal da lista, maio de 2004 (PDF)UFO UpDates, September 2004Arquivo da lista de discussão UFO UpDates (PDF) · a nota de triangulação de Bruce Maccabee de 17 de setembro, as fotografias de Claude Poher, a afirmação de Santiago Yturria de que “a farsa das chamas de petróleo de Cantarel foi desmascarada em rede nacional” e a réplica de Franz de 30 de setembroUFO UpDates, January 2005Arquivo da lista de discussão UFO UpDates (PDF) · Bruce Maccabee, 5 de janeiro de 2005: “essencialmente ‘joguei as mãos para o alto, desesperado’”The Mexican Air Force UFO Affair: Aliens, Ball Lightning, or Flares?James C. Smith · eSkeptic, The Skeptics Society · 24 de julho de 2004 (também na Skeptic, vol. 11, nº 2) · a comparação, por Landsat e DMSP, do trecho dos “dez óvnis” com Akal-C, Akal-J e Nohoch-A, e a “história de pescador” de Michael ShermerThe Campeche, Mexico ‘Infrared UFO’ VideoRobert Sheaffer · Skeptical Inquirer, vol. 28, nº 5 (setembro–outubro de 2004), pp. 36–40 · com o engenheiro de infravermelho John Lester Miller sobre o que um FLIR enxerga; o horizonte a 211 quilômetros · PDF do Center for InquiryUFOs appear in Mexico (again)!Tim Printy · astronomyufo.com · agosto de 2004, atualizado em janeiro de 2005 · nove páginas: a fita, as hipóteses, a calibração pela lua, a triangulação por paralaxe e a comparação pixel a pixel dos grupos de tochas com as plataformasA Study of the March 5, 2004 Radar and FLIR Sightings during a Surveillance Flight by the Mexican Department of DefenseBruce Maccabee · 11 de agosto de 2004, revisado até 28 de outubro e divulgado em 27 de dezembro de 2004 · o registro quadro a quadro da fita, as entrevistas da tripulação, o boletim meteorológico, a análise do primeiro alvo de radar e o apêndice sobre a explicação das chamas de gás · cópia no Wayback Machine do arquivo Word do site do autorOvnis infrarrojos de Campeche: una explicación viableMario Méndez Acosta · Pensar, vol. 1, nº 4 (2004) · a revista latino-americana do Center for Inquiry · a conclusão do analista chileno Andrés Duarte de que as imagens são objetos quentes e estáticos a mais de 100 quilômetros do avião · cópia no Wayback MachineFamous Mexican UFO video debunked by TV hostOpen Minds · 2 de outubro de 2014 · a reconstrução das linhas de visada de Ben McGee para Chasing UFOs, da National Geographic, com comentários posteriores de Bruce Maccabee e Alejandro FranzMexican Air Force UFO Video — Oil RigsTópico do Metabunk aberto em 2019 · as reconstruções da rota e das plataformas de Mick West e flarkey, os focos de calor do NASA FIRMS de 5 de março de 2004 encontrados por Vattic e uma republicação, em 2022, do vídeo comparativo de Franz de 2005El día que la SEDENA creyó que había ovnis en México y entregó la única copia del video a Jaime MaussanPriscila Pregunta · 20 de outubro de 2020 · uma cronologia dos pedidos de acesso à informação apresentados à Secretaria da Defesa de 2004 a 2019 e de suas respostasOvnis en la Plataforma Nacional de TransparenciaCorriente Alterna, Universidad Nacional Autónoma de México · 3 de julho de 2022 · as falas da cabine em espanhol e a resposta da Secretaria de que o vídeo original foi entregue a Maussan “para que lo hiciera llegar a diversos centros de investigación para su estudio”La Fuerza Aérea de México podría haber registrado un avistamiento de ovnis, pero ya no tiene los videosInvestigação do SinEmbargo republicada pelo Noroeste · 2 de julho de 2021 · a resposta de 2016: “No se cuenta con información escrita de la entrega del video”Sedena confirma avistamiento de ovnis en México detectado por la Fuerza Aérea MexicanaEl Heraldo de México · 8 de setembro de 2021 · a resposta da Secretaria à jornalista Laura Sánchez Ley, tal como ela a resumiu: “Sus radares detectaron 3 ECOS y el FLIR STAR detectó un grupo de blancos térmicos”Fuerza Aérea Mexicana captó presencia de 11 objetos anómalos en 2004: MaussanExcélsior · 12 de setembro de 2023 · a fita exibida na assembleia da Câmara dos Deputados sobre fenômenos anômalos não identificados¿Sheinbaum cree en los ovnis? Esto dice sobre los presuntos avistamientos reportados por la Fuerza AéreaInfobae México · 9 de julho de 2025 · a presidente questionada sobre a fita de 2004 em sua entrevista coletiva matinalAsí fue el día en que la Sedena grabó 16 supuestos ovnis en el cielo de CampecheEl Heraldo de México · 27 de julho de 2023 · um relato posterior em que a contagem virou dezesseis e os raios globulares são atribuídos à própria SecretariaEste es el video de avistamiento de ovnis que grabó la Sedena en 2004 y llegó a manos de MaussanHeraldo Binario · 9 de julho de 2025 · um relato em que as luzes viraram “una serie de 18 objetos brillantes”Ovnis mexicanos: caso cerradoMarcianitos Verdes (Luis Ruiz Noguez) · 17 de outubro de 2021 · o resumo de Kentaro Mori sobre como se chegou à explicação das tochas, traduzido do Ceticismo AbertoCampeche (Mexique), 5 mars 2004RR0 · um dossiê francês com a cronologia, as análises de Poher, Sparks e Printy e as discrepâncias nos nomes da tripulaçãoObservation de CampecheWikipédia (em francês) · visão geral, com as análises de Franz, Smith e Poher e as declarações do NARCAP

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